O cientista brasileiro Matheus dos Santos Farias, de 26 anos, desenvolveu uma equação matemática inédita que poderá auxiliar no combate ao câncer de próstata. Em entrevista exclusiva, ele revelou como conseguiu elaborar, diretamente em seu computador e sem custos, uma ferramenta capaz de simular análises executadas por aparelhos laboratoriais caros, com valores que podem alcançar até US$ 2 milhões.
“Eu consegui pegar o código de machine learning, que é usando IA, e consegui criar esse aparelho dentro do meu computador de forma gratuita, que dá o tamanho dessa partícula de ouro que deve ser colocada na próstata do paciente, a custo zero”, disse Matheus.
Natural de Girau do Ponciano, no interior de Alagoas, o jovem mudou-se para São Paulo aos 18 anos em busca de oportunidades educacionais. Ele se formou em Física na Universidade de São Paulo (USP), garantiu uma bolsa integral de pós-graduação no Hospital Israelita Albert Einstein e concebeu a pesquisa que resultou no Modelo Padrão Farias (MPF), uma formulação matemática voltada para prever o crescimento de nanopartículas de ouro. Recentemente, ele teve a patente da descoberta concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Como a equação pode ajudar no tratamento do câncer A inovação está associada à nanobraquiterapia, uma tecnologia experimental estudada para aplicações futuras contra o câncer de próstata. O método envolve o uso de nanopartículas de ouro, estruturas microscópicas invisíveis a olho nu, que em algumas possibilidades de investigação seriam ativadas em um reator nuclear para ganhar propriedades radioativas.
O objetivo principal é direcionar ou concentrar a radiação diretamente na região do tumor, atingindo as células malignas com maior precisão e preservando os tecidos saudáveis. Para viabilizar a tecnologia, os cientistas precisam controlar características como tamanho, distribuição e comportamento das nanopartículas durante a fabricação.
É exatamente nessa fase que atua a equação do brasileiro. O Modelo Padrão Farias emprega cálculos matemáticos e simulações computacionais para prever a variação do diâmetro das nanopartículas ao longo do tempo, viabilizando o teste de diferentes condições antes da execução de experimentos físicos.
Simulação de equipamento milionário no computador A pesquisa ganhou divulgação oficial por meio da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), contando também com a parceria de especialistas da University College London, no Reino Unido. Matheus explicou que utilizou programação e inteligência artificial para reproduzir virtualmente análises de equipamentos sofisticados e onerosos de caracterização de nanopartículas.
A ferramenta foi construída em Python, linguagem amplamente aplicada em investigações científicas e inteligência artificial. De acordo com a CNEN, o sistema gera imagens sintéticas e simula técnicas como microscopia eletrônica de transmissão e espalhamento dinâmico de luz.
Embora não substitua integralmente os aparelhos físicos, o programa atua como um recurso complementar para o planejamento de experimentos e análise de resultados, diminuindo a dependência de processos de tentativa e erro no laboratório.
Do interior de Alagoas para a USP A trajetória de Matheus é marcada por superações. Nascido em Arapiraca e criado em Girau do Ponciano, no Agreste alagoano, ele frequentou escolas públicas e enfrentou dificuldades com a matemática durante a infância.
Aos 18 anos, migrou para São Paulo, ingressou no curso de Física da USP e, durante a pandemia, obteve o segundo lugar em um processo seletivo para a pós-graduação em Física Médica no Hospital Israelita Albert Einstein, conquistando uma bolsa integral. Como o curso custava cerca de R$ 74 mil, valor inviável para sua realidade financeira, a bolsa foi fundamental. Ele aprofundou seus estudos na interface entre física e medicina, publicou artigos premiados e retornou à USP para desenvolver suas pesquisas no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), onde estruturou o Modelo Padrão Farias.
Pesquisa teve colaboração internacional A criação da fórmula integrou saberes de matemática, física nuclear, química, nanotecnologia e computação, contando com a cooperação de cientistas do Departamento de Engenharia Química da University College London (UCL). O trabalho foi executado ao longo do mestrado de Matheus no IPEN/USP e recebeu suporte financeiro de bolsas da Comissão Nacional de Energia Nuclear. O pedido de patente no INPI refere-se ao controle preditivo da síntese de nanopartículas metálicas.
“É do povo” Fantasias à parte, o jovem pesquisador mantém seu foco na aproximação entre física nuclear, matemática e medicina, com vistas a aplicações futuras em radioterapia e medicina nuclear.
“Me dedicarei, vou continuar estudando em prol da pesquisa para que essa pesquisa possa ser aplicada futuramente para ajudar todos os pacientes oncológicos. Porque a pesquisa não é só minha, eu fiz mas ela é nossa, é do Brasil, é do povo”, concluiu.
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