O dinheiro que os brasileiros costumavam direcionar para as casas de apostas online parece estar sendo redirecionado para a compra de alimentos, conforme apontam levantamentos recentes divulgados pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras).
A entidade registrou um avanço de 6,5% nas vendas do setor entre os dias 5 e 11 de outubro, além de um crescimento de 6,3% no período de 12 a 18 de outubro, sempre em comparação com os mesmos intervalos do ano anterior.
O vice-presidente da Abras, Marcio Milan, explicou que a instituição acompanha o comportamento de compra das famílias anualmente por meio de informações coletadas em mercados de todo o país. Embora variações regionais sejam comuns, o comportamento verificado nas semanas analisadas surpreendeu por registrar um ritmo nacional “muito além do histórico de vários anos”.
“Comparamos com anos anteriores e buscamos entender qual a influência desse ano que não ocorreu em anos anteriores. Não teve entrada de dinheiro maior, não teve aumento de preço maior. O que teve de anormal foi o fim das bets”, disse.
Outro indicativo que fundamentou a análise foi a uniformidade do fenômeno, presente em todas as regiões brasileiras e em diversos modelos de estabelecimento. Segundo Milan, o crescimento contemplou supermercados, hipermercados, lojas de vizinhança e atacarejos.
“Nós complementamos também outros dados para ter certeza que essa medida [proibição das bets] ajudou no consumo das famílias”, disse.
O panorama de restrição teve início em 25 de setembro, data em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a medida provisória que ilegalizou as apostas online no território nacional. Com a determinação, os depósitos em plataformas de apostas e a veiculação de novas campanhas publicitárias foram suspensos imediatamente. Os port setIsLoading permaneceram acessíveis até as 23h59 do dia 5 de outubro, viabilizando o saque de saldos pelos usuários e o encerramento de contratos de publicidade em vigor. A partir de 6 de outubro, uma força-tarefa governamental iniciou o bloqueio definitivo dos sites.
A Abras ressalta que o recorte temporal de outubro não sofreu influência de outros programas de transferência de renda que costumam impulsionar o comércio. O reajuste e a antecipação do Bolsa Família começaram a ser distribuídos apenas em 19 de outubro, após o término da análise, e o pagamento do PIS/Pasep também ficou fora do período.
Desempenho por regiões e impacto na cesta básica
O avanço mapeado pela associação ocorreu em território nacional, embora com intensidades distintas. Na semana de 5 a 11 de outubro, a região Sul e o grupo composto por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro lideraram com altas de 10,6% cada. Na sequência apareceram o Nordeste (6,5%), o interior paulista (5,6%), a Grande Rio (4%), o Centro-Oeste (3,6%) e a Grande São Paulo (1,2%).
No período subsequente, de 12 a 18 de outubro, o Sul manteve a liderança com 9%, seguido por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio (7,1%) e pela Grande Rio (6%). O interior de São Paulo marcou 5,6%, a Grande São Paulo registrou 5,5%, o Nordeste obteve 4,5% e o Centro-Oeste fechou com 3,5%.
De acordo com a Abras, o salto no consumo concentrou-se principalmente em itens fundamentais da cesta básica, tais como arroz, óleo, macarrão e café. Em setembro, o arroz subiu 4,56% e o óleo de soja encareceu 1,83%, ao passo que o café registrou retração de 1,09% e o macarrão avançou 0,18%. No acumulado de 2026, os preços do óleo (-8,59%), do macarrão (-0,20%) e do café (-16,19%) apresentam redução, enquanto o arroz acumula alta de 4,96%.
O balanço mensal da entidade apontou estabilidade em setembro, mês em que o consumo nos lares teve queda de 1,46% frente a agosto — período que havia registrado altas de 3,01% em julho e de 2,21% em agosto. Na comparação com setembro de 2025, o crescimento foi de 0,59%, somando um avanço de 2,70% no acumulado de janeiro a setembro.
Todos os índices divulgados pela associação são deflacionados pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), neutralizando assim os reflexos da inflação no período.
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