Quando os ônibus pararam no dia da eleição, o 'Exército de Lula' pegou as chaves do carro

Voluntários e redes sociais impulsionam virada histórica de Lula

Entretenimento

Quando muitos ônibus na cidade de Salvador deixaram de circular inexplicavelmente no último domingo, o professor de história Martins Mafra pegou as chaves do seu carro e saiu para buscar eleitores ilhados por toda a cidade.

As ações de Mafra na capital baiana integraram um amplo movimento nacional de mobilização de eleitores que ajudou a conduzir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a um inédito quarto mandato. Assustados com a liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL) na primeira etapa do pleito, simpatizantes de Lula se organizaram com agilidade. Eles recorreram a estratégias digitais inovadoras, campanhas comunitárias e transporte gratuito, resultando em um acréscimo de 10 milhões de votos para o petista no segundo turno.

‘Sou pai e trabalho com educação, então esta foi uma oportunidade para ensinar e mostrar que a gente pode fazer a diferença’, disse Mafra, que, junto com seu filho Benjamin de oito anos, ofereceu carona a apoiadores sem perguntar a corrente política.

‘Uma coisa é ficar em casa reclamando da prefeitura ou postando vídeos na internet; outra coisa é se levantar, passar pela porta e realmente fazer algo.’

Flávio, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, viajou para os Estados Unidos nesta semana e autoproclamou-se o ‘líder’ legítimo do Brasil, contestando a veracidade do salto de 10 milhões de votos obtido por Lula. O parlamentar também colocou em dúvida a extensão de duas horas no horário de votação, pleiteada pelo comitê de Lula e autorizada por um magistrado do Supremo Tribunal Federal nomeado pelo petista, apontando a paralisação dos coletivos na Bahia como uma das justificativas. O grupo político de Flávio havia solicitado uma prorrogação semelhante por causa de tempestades em estados sulistas.

Conforme dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral, a extensão do horário representou pouco mais de 34 mil votos em uma disputa em que Lula triunfou com uma margem de 4,4 milhões de sufrágios.

Reduto lulista e estratégia digital A Bahia, tradicional reduto eleitoral de Lula, registrou a maior retração na taxa de abstenção entre os dois turnos, com aproximadamente 400 mil novos votantes comparecendo às urnas. Quase um quarto desse contingente suplementar originou-se em Salvador, município com mais de 2,5 milhões de habitantes onde o petista alcançou 73% da preferência no segundo turno.

Gabriel Mercury, soteropolitano de 41 anos e herdeiro da cantora Daniela Mercury, atuou na organização da reviravolta. Apreensivo com o desempenho inferior do candidato do PT no primeiro turno, ele iniciou convidando eleitores indecisos para debater política tomando café. Posteriormente, propôs premiações financeiras de até R$2.400 para quem citasse ao menos uma iniciativa legislativa de Flávio Bolsonaro favorável aos trabalhadores. Ninguém aceitou o desafio.

Após o resultado aquém das expectativas na primeira votação, a coordenação da campanha de Lula buscou reformular uma estrutura afetada por conflitos internos, diretrizes imprecisas e certo comodismo da situação, apontaram assessores.

Compreendendo que nenhum postulante à Presidência havia revertido um revés no primeiro turno, Lula, aos 81 anos, adquiriu seu primeiro smartphone para se conectar com os cidadãos nas redes sociais que comandam o debate político nacional.

Paralelamente, o deputado federal André Janones (Rede-MG), fundamental na vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro em 2022, ampliou rapidamente um canal no WhatsApp denominado ‘Exército de Lula’. Motivando seus seguidores a engajarem conhecidos e divulgarem material pró-Lula, o espaço saltou de 50 mil inscritos antes do primeiro turno para mais de 10 milhões na etapa decisiva.

O analista de risco político Creomar de Souza, da consultoria Dharma, avaliou que a equipe do petista, impulsionada pela atuação de Janones, soube explorar os tropeços de Flávio para persuadir o eleitorado de que ele representava um perigo à democracia, além de ameaçar conquistas sociais e cortar auxílios essenciais para milhões de brasileiros.

À medida que o pleito se aproximava, os levantamentos apontavam um empate técnico entre os concorrentes. No domingo de votação, Mercury já acreditava na vitória, mas o sistema de transporte coletivo de Salvador paralisou logo nas primeiras horas do dia.

O fiasco dos ônibus e a reação popular Em território nacional, o poder público tem a obrigação de disponibilizar transporte coletivo sem custos no dia da eleição. Contudo, relatos em Salvador — cuja prefeitura, liderada por Bruno Reis (União Brasil), apoiava Flávio — apontavam frotas paradas nas garagens.

Questionado pela Reuters, Reis declarou por nota que apoiou Flávio no segundo turno em alinhamento com a diretriz de sua legenda. Agentes do Procon baiano localizaram 944 veículos retidos. Jaime Barreiros Neto, analista judiciário do TRE da Bahia, estimou que ao menos 30% da frota ficou inoperante.

Reis justificou que a paralisação decorreu da presença de adesivos de Lula colados nos ônibus em desacordo com a legislação eleitoral. Assim que a administração municipal identificou que a retirada dos adesivos gerou retenção, determinou a liberação imediata dos veículos, afirmou em coletiva de imprensa. Na nota enviada à Reuters, o prefeito pontuou que militantes continuaram colando material de campanha nos ônibus que iniciavam o expediente naquele domingo.

O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia decretou a prisão do secretário de Mobilidade Urbana da capital, Pablo Souza, em virtude da ausência dos coletivos. O mandado foi revogado no dia seguinte, mas a corte solicitou apuração sobre o episódio. Souza, que cumpria agenda oficial em Paris no domingo da votação, negou irregularidades e informou à Reuters que a quantidade de veículos era idêntica à do primeiro turno, cumprindo as normas eleitorais.

Com a propagação das notícias sobre a falta de ônibus, Mercury e um grupo de amigos apelaram às redes sociais para que voluntários transportassem eleitores aos locais de votação, sem distinção partidária. Alguns assumiram o volante, enquanto outros doaram recursos para custear combustíveis. A estimativa de Mercury aponta que cerca de 600 pessoas foram conduzidas às urnas.

‘Política não é apenas política institucional’, disse ele. ‘A gente faz política por meio de nossas ações.’

Profissionais do Uber também aderiram ao movimento, com milhares oferecendo trajetos gratuitos de até R$50 durante o dia, relatou Adriano de Jesus Braga dos Santos, motorista e criador de conteúdo digital que realizou pessoalmente 36 viagens solidárias.

Nicole Soares, de 18 anos, aguardou 40 minutos por um coletivo, mas não cogitou desistir. ‘A gente tem o nosso direito de voto’, declarou após registrar seu voto em Lula.

Apesar dos obstáculos, alguns eleitores não conseguiram votar. Grécia de Jesus Nunes, vendedora ambulante de 54 anos, relatou que apenas dois ônibus passaram pelo seu ponto de trabalho entre 8h e 14h. Sem transporte durante sua breve pausa e impossibilitada de abandonar o serviço quando os voluntários chegaram, ela perdeu a votação, mas celebrou o resultado final.

‘Minha vida é Lula’, disse ela. ‘Sou Lula até morrer.’

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