Ainda que pareçam distantes, os eventos ocorridos no bairro negro do Harlem, em Nova York, na primeira metade do século 20, continuam relevantes para os debates sobre antirracismo, branquitude, identidade e política. Foi, afinal, em meio aos estereótipos racistas da sociedade norte-americana que um conjunto de artistas negros propôs uma nova forma de narrar sua experiência naquele país, expondo ao mundo as contradições da América.
O movimento conhecido como Renascimento do Harlem, cujo boom ocorreu entre as décadas de 1910 e 1920, almejou eliminar o imaginário racista por meio da renovação estética, distanciando de papéis diminutos, quando não degenerados, as expressões culturais negras. Na esteira desse movimento, apareceu, em 1912, sem indicação de autoria, Autobiografia de um ex-negro, romance de James Weldon Johnson, que só se apresentaria como autor do livro quinze anos depois, em edição de 1927. Quase cem anos após a publicação assinada por Weldon Johnson, o volume ganha uma nova edição brasileira, na Coleção Harlem Renaissance, da Clássicos Zahar, que já lançou este ano Coisa de gente branca (trad. José Roberto O’Shea), de Langston Hughes, e De passagem (trad. floresta), de Nella Larsen.
A começar pelo título, não é de se estranhar que Autobiografia de um ex-negro traga uma história de metamorfoses impactantes. Como ser um ex-negro, afinal? Considerado o romance que inaugura a literatura de autoria negra em primeira pessoa nos Estados Unidos, o livro oferece as memórias de um narrador sufocado entre o remorso e a necessidade de confissão de um segredo íntimo.
A infância e o despertar para a questão racial
A história retorna ao nascimento do protagonista para destacar a sucessão de eventos que o levaria até o tempo da escrita. Filho do relacionamento inter-racial entre uma mulher negra de pele clara e um homem branco, o vaidoso protagonista possui uma visível “brancura de marfim”, contraposta à origem familiar e às dinâmicas raciais dos EUA, que o classificariam como negro.
O retorno à infância é importante, porque no ambiente escolar ocorre a primeira fissura no narrador, quando a escola se recusa a aceitá-lo entre os estudantes brancos. Racializado como alguém de menor valor, o menino volta para casa com sentimentos nebulosos, limitado à posição de outro e preso numa pergunta: “Mãe, mãe, me diga, eu sou preto?”.
É o marco do nascimento de um protagonista negro que precisa mudar e enfrentar o mundo com outras lentes. Antes, o senso de universalidade branca permite a idealização de uma liberdade incondicional; com a barreira racial, levantam-se limitações que mostram uma consciência dupla. No caso do personagem de Weldon Johnson, a mudança é “mais subjetiva do que objetiva”, porque ele tem uma característica particular: o passing, ou passabilidade, isto é, a capacidade de se identificar ora como branco ora como negro, a depender do contexto, desde que omitida a origem familiar.
Ainda que a raça se torne um fato incontornável, não é um impeditivo para outras ações do personagem. Pelo contrário, é a partir do reconhecimento da questão que a admiração pela comunidade negra se torna constitutiva do sujeito. O protagonista começa um processo de pesquisa e deleite com referências negras como fonte de inspiração e acalanto; pouco a pouco, ele incorpora a admiração pela oratória do amigo Brilhante, pelas imagens de Alexandre Dumas e Frederick Douglass e pela musicalidade negra como um todo. Nasce, portanto, o orgulho racial.
A morte da mãe, porém, é um forte golpe que ameaça o protagonista, exigindo que pegue suas reservas e viaje em direção a Atlanta, onde se matricula numa universidade exclusiva para estudantes negros. Lá, ele se hospeda numa pequena acomodação, onde é furtado e perde todo o seu dinheiro. Orgulhoso para pedir apoio na instituição que o recebe, o narrador toma uma decisão tão inesperada quanto radical: sair em direção a Jacksonville, onde as promessas de emprego parecem factíveis.
A mudança para Jacksonville tem um papel de transição no romance. Por um lado, ali o narrador se encanta pelos cultos da igreja negra, pelos passos do cakewalk, e de fato constata sua “entrada na raça”; por outro, sobressai uma personalidade que cede à cobiça e abre mão de princípios morais sólidos. O gosto desenfreado pelo dinheiro quase sempre implica a abdicação silenciosa de algo importante para o personagem. Além disso, repete-se o mecanismo narrativo de transformação de seu destino a partir das tragédias do entorno, como se elas ditassem o fim daquele que será um ex-negro.
Contradições
Como de praxe, o retorno para Nova York é consequência de outro evento exterior, e na megalópole descobrimos um personagem anti-heroico. Gastando o dinheiro acumulado ao longo do tempo, ele passa a frequentar a agitada noite da cidade e a apostar em jogos de azar, perdendo o patrimônio e apelando aos prazeres do piano como paliativo aos problemas imediatos. Acontece que a vida noturna, entre boates e jogatinas, também mostra o mundo da música afro-americana das primeiras décadas do século 20, especialmente o ragtime. Ou seja, ao mesmo tempo que definha por suas escolhas e pelas dinâmicas do capitalismo, o protagonista narra o encanto com um cenário de sofisticação e elegância negras.
Os momentos de crise são expressivos da potência literária de Weldon Johnson. Longe de criar um narrador moralizante, surge uma voz submetida às contradições de uma vida nos limites do racismo e do sonho americano. O texto apresenta um personagem suscetível às promessas de fartura, daí a dupla alegoria que perpassa os impasses do romance e a subjetividade do narrador, pois, se de um lado há o dinheiro como imagem do mundo branco, de outro há a experiência social negra como fonte de uma nova noção de dignidade.
São as tragédias, porém, que dão encadeamento narrativo ao enredo, e, com o rompante de um tiro, o protagonista foge para a Europa à custa de seu peculiar “amigo milionário”. A ida à França mostra outro diálogo com a literatura afro-americana: a ideia de Paris como uma espécie de território antiamericano, livre de preconceitos e violência racial, no qual o personagem flana sem medo, cedendo apenas aos desejos de uma audiência branca, gulosa daquilo que lhe era exótico: a música negra.
A pulsão que o protagonista revive não poderia surgir senão da música. Numa das inesperadas apresentações, um pianista virtuoso surge com uma peça de extrema inventividade, superando a mistura de ragtime com música clássica do narrador. Com o impacto da novidade, a ilusão europeia — que também é a da brancura — rompe-se como o fio do destino e permite o florescimento do desejo de encontrar uma autoria própria.
O paradigma vivido com essa mudança é interessante, porque, se as tragédias direcionam a narrativa, o personagem, ao abraçar o plano de ser um músico negro, finalmente assume um posicionamento condizente com sua vontade, a ponto de organizar escolhas próprias. De certo modo, a conciliação com a herança negra cria um campo de elaboração e calmaria, permitindo encontrar a paz perdida, o nome nunca apresentado e, em sentido amplo, a proposta emancipatória do Renascimento do Harlem.
Quando o texto sugere uma resolução positivada pela afirmação do orgulho negro, contudo, os limites de uma sociedade segregada se impõem. Já no interior, apaixonado pelas “velhas canções de escravos”, o narrador testemunha o assassinato bárbaro de um homem e a “transformação de seres humanos em feras selvagens”. Estarrecido pelo crime, fica paralisado numa das cenas mais sofridas do romance e, talvez, da literatura afro-americana.
Sem nome nem história
A inversão de identidade cresce junto ao sentimento ambíguo da vergonha dupla por se sentir desrespeitado como negro e pela derrocada de um ideal de democracia estadunidense. Capaz de reconhecer a legitimidade de todas as formas de resistência negra, o personagem de Weldon Johnson toma uma inesperada decisão. Respaldado na pele clara, omite a identidade racial e abdica do próprio nome.
Ao negar sua história, o narrador aposta na mudança de identidade e na expectativa de não ser tratado como negro. O romance de Weldon Johnson, portanto, abre críticas contundentes à sociedade norte-americana, ficcionalizando a arbitrariedade do discurso racial e de suas categorias móveis. Ao ocultar o nome, o protagonista tenta fugir da vergonha de ser racialmente humilhado, mas não se torna branco. Em outras palavras, a arbitrariedade das relações de opressão e violência é exposta ao ridículo e uma peça é pregada contra a nação.
Com a tentativa de se integrar no mundo branco, pouco a pouco o homem tenta se aproveitar do universo que “pode ser resumido numa única palavra, essa palavra é ‘dinheiro’”. Ou seja, a ambição e a cobiça ganham espaço e configuram um território de branquitude, alienando o personagem a ponto de sua dissimulação se confundir com a própria identidade.
O mal-estar subjetivo torna-se o fardo do personagem. O custo da decisão é alto e ela germina uma angústia que se ergue como sacrifício ético e moral. Em suma, tal como muitas das dificuldades raciais, o drama nuclear de Autobiografia de um ex-negro está na negação da negritude e no impasse do narrador ao assumir uma posição diante da sua condição ambígua.
“É difícil analisar meus sentimentos em relação à minha posição atual no mundo”, afirma o sujeito, atado aos grilhões de uma mentira alva. Diante do impossível que é deixar de ser negro e sobreviver em paz, a mesquinhez se impõe e o homem desconhecido escolhe “a parte indigna”: tentar se tornar branco. Custou-lhe uma biografia escrita com gosto de remorso e pedidos de socorro.
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