Petrolíferas resistem à pressão para investir em novas refinarias apesar da disparada dos combustíveis

Gigantes do petróleo ignoram crise e evitam novas refinarias

Mercados

Diante dos apelos de governantes por aportes bilionários para expandir o refino no Ocidente, as maiores companhias petrolíferas globais decidiram canalizar seus ganhos extraordinários — impulsionados pelo conflito no Irã — para a remuneração de acionistas e o abatimento de passivos financeiros.

No terceiro trimestre, corporações como ExxonMobil, Chevron, BP, Shell e TotalEnergies acumularam, juntas, um lucro líquido superior a US$ 50 bilhões, período em que as cotações internacionais da gasolina, do diesel e do querosene de aviação se mantiveram próximas de patamares recordes. A Shell elevou seu programa de recompra de ações para US$ 5 bilhões no trimestre atual, e a Exxon se comprometeu com outro programa de US$ 20 bilhões para 2027, enquanto os lucros extraordinários da BP estão sendo destinados, em grande parte, à redução de dívidas.

Esses resultados expressivos foram puxados pelo setor de refino, que operou próximo da capacidade máxima para lucrar com as cotações elevadas e suprir o déficit de oferta gerado pelo bloqueio de embarques no Estreito de Hormuz provocado pela guerra.

Cerca de 10% da capacidade global de refino saiu de operação neste ano após o início da guerra e os ataques ucranianos a refinarias russas. As restrições às exportações impostas por Pequim e Moscou tornaram o mercado ainda mais apertado. Especialistas avaliam que esse cenário de margens elevadas deve persistir, com a Agência Internacional de Energia projetando escassez de diesel até 2027.

Pressão política e resistência do setor

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem pressionado as empresas a fortalecer as cadeias domésticas de abastecimento do setor de refino, convocou executivos petrolíferos para uma reunião na Casa Branca em setembro a fim de discutir formas de reduzir os preços dos combustíveis. Líderes do G7 e da União Europeia também pediram mais investimentos para reforçar a segurança energética após a turbulência no mercado.

Contudo, as companhias optaram por intervenções pontuais em estruturas já existentes para elevar o rendimento, recusando a construção de novas unidades devido aos prazos e custos elevados.

O analista da Morningstar Allen Good afirmou que, como a demanda por combustíveis deverá cair no futuro, “ninguém construirá uma refinaria do zero na Europa ou nos Estados Unidos, considerando o tempo que isso levaria”. “Não acho que alguém considere as margens atuais sustentáveis de alguma forma”, acrescentou.

Meg O’Neill, CEO da BP, disse que, embora a empresa não pretendesse se desfazer de mais refinarias —após vender neste ano sua unidade de Gelsenkirchen, na Alemanha—, também não ampliaria a capacidade “neste momento”.

Movimentações no mercado americano

No segmento de empresas de médio porte nos Estados Unidos, a cautela é a mesma. A Phillips 66 informou, durante sua teleconferência de resultados nesta semana, que estava concentrando a maior parte dos investimentos em ativos de midstream, usados para armazenar ou transportar produtos refinados.

Assim como as grandes petrolíferas, a Phillips 66 fez investimentos menores em suas instalações. “Não são investimentos [enormes] e transformadores, de vários bilhões de dólares”, disse Brian Mandell, vice-presidente executivo de marketing e operações comerciais da Phillips 66. “São investimentos de dezenas ou centenas de milhões de dólares”, que permitem à empresa ampliar “gradualmente” a capacidade e a utilização dos ativos.

Em contrapartida, a Valero adquiriu recentemente uma unidade inativa em Houston da LyondellBasell por US$ 320,5 milhões, com planos de reativar parte da capacidade até o final de 2027.

Enquanto a América do Norte e a Europa viram uma retração de 2,1 milhões de barris diários desde 2019, nações da Ásia, do Oriente Médio e da África, como China, Índia, Nigéria e México, expandiram sua infraestrutura em 4,4 milhões de barris por dia no mesmo período.

O estrategista sênior de energia do Rabobank, Joe DeLaura, prevê que o barril do tipo Brent alcance média de US$ 120 no primeiro semestre do próximo ano, mantendo o spread do diesel ao redor de US$ 100 por barril, mesmo com os riscos geopolíticos em curso. Trump afirmou que seu governo “talvez realize outra pequena Fúria Épica”, em referência ao nome dado pelo Pentágono à guerra que ele lançou contra Teerã em fevereiro.

“Tanto o Irã quanto os Estados Unidos provavelmente atacarão infraestruturas em uma escala muito maior do que no início desta guerra”, disse DeLaura. “A infraestrutura energética provavelmente será atacada. Isso elevará os crack spreads do diesel e [da gasolina], bem como o preço do petróleo.”

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