No dia de Natal de 2017, Pedro Mac Dowell enviou uma mensagem a Jorge Paulo Lemann para detalhar o empreendimento que pretendia erguer, unindo conceitos da AWS, da Amazon, e da fintech americana Stripe. Esse contato marcou o nascimento da QI Tech, atualmente avaliada em aproximadamente US$ 2 bilhões. O destinatário da mensagem era o renomado empresário brasileiro por trás da criação da Ambev e da aquisição do Burger King. A relação entre ambos antecedia os negócios: Mac Dowell havia conhecido Lemann na juventude, período em que treinava para se tornar tenista profissional, e desde então buscava seus conselhos sobre os rumos de sua carreira.
Naquela data festiva, ele desejava mudar de direção novamente. Embora comandasse uma gestora de investimentos com R$ 2,5 bilhões sob sua tutela, enxergou uma oportunidade superior justamente nos serviços que precisava contratar dos bancos. Assim, a trajetória da QI Tech teve início na decisão de converter uma dor própria em um modelo comercial voltado para terceiros.
Serviços financeiros para quem não é banco
Enquanto liderava a Quatá Investimentos, gestora que fundou, Mac Dowell geria recursos de investidores voltados ao financiamento corporativo. Ele determinava quais companhias receberiam o capital, porém dependia de uma instituição financeira para formalizar os empréstimos e efetivar os procedimentos.
Nesse ponto surgiam os entraves. As estruturas bancárias tradicionais foram concebidas para uso interno, de modo que integrá-las para estruturar o crédito de outra empresa demandava adaptações complexas e negociações exaustivas. “Porque o banco não foi feito para que eu usasse o sistema dele para poder montar uma operação para o meu fundo”, explica, em entrevista a Mariana Amaro, no Do Zero ao Topo.
O objetivo era disponibilizar essa estrutura pronta para qualquer interessado. A inspiração na Amazon veio da AWS, braço de tecnologia sob demanda em que o cliente paga conforme o uso, enquanto a referência da Stripe permitia integrar serviços de pagamento via internet sem renegociações constantes a cada transação.
Lemann respondeu recomendando um especialista no setor: André Street, cofundador da Stone. As tratativas contribuíram para refinar o projeto. Posteriormente, Mac Dowell afastou-se gradualmente da gestão da Quatá e uniu-se a sócios com um capital inicial de R$ 3 milhões para fundar a nova empresa.
Desafios e recomeços anteriores
Reiniciar projetos não era novidade para o empreendedor. Aos 24 anos, após atuar com análise de crédito, ele ingressou em uma gestora ao lado de um amigo, chegando a vender seu automóvel e aplicar todas as economias. No entanto, os recursos eram escassos e havia divergências sobre o uso do capital entre os sócios.
Uma lembrança ilustra o impasse: enquanto ele priorizava investimentos na equipe, um sócio gastava com revestimentos de parede que imitavam madeira no escritório. A necessidade de atrair investidores para honrar compromissos era urgente, mas cada gasto reduzia o tempo viável para alcançá-los.
O empreendimento durou cerca de meio ano, período após o qual os parceiros liquidaram os ativos, reaveram parte do dinheiro e encerraram as atividades. Em seguida, Mac Dowell passou a trabalhar em uma corretora na condução de operações de crédito, embora com autonomia limitada.
Em 2008, ele tentou mais uma vez. Comercializou outro carro, resgatou aplicações e obteve montante suficiente para sustentar a Quatá por dez meses. Mesmo com a fuga de investidores prometidos devido à crise financeira, a gestora saiu do papel e prosperou. Anos mais tarde, embora lucrativa, a empresa já não trazia o estímulo necessário, motivando sua saída gradual.
A criação da QI Tech
A QI Tech iniciou suas atividades com dez engenheiros e uma aposta ousada para os padrões de mercado: desenvolver um sistema proprietário para gerenciar contas, transferências, empréstimos e pagamentos. Embora houvesse softwares comerciais disponíveis, os fundadores buscavam uma tecnologia moldada especificamente para o uso corporativo externo.
Para garantir agilidade, a equipe realizava reuniões em pé, onde cada integrante dispunha de cerca de um minuto para relatar as metas do dia e apontar eventuais necessidades de auxílio. “E ficar de pé incomoda, então faz com que seja rápido”, conta Mac Dowell. O costume persistiu com a expansão, assim como a ausência de uma sala privativa para o fundador, que prefere sentar-se junto aos demais colaboradores.
Licença do Banco Central e o obstáculo fiscal
A autorização oficial do Banco Central foi emitida no final de 2018, tornando a QI Tech a pioneira como sociedade de crédito direto, nova modalidade regulatória daquele ano. As operações começaram em maio de 2019, mas o modelo ainda carecia de adequação nos cadastros fiscais da época.
A complicação surgiu na apuração de tributos, visto que a empresa era classificada como prestadora de serviços comum, o que exigiria a emissão de uma nota fiscal para cada transação efetuada. “Para cada TED que a gente mandava, na teoria eu tinha que emitir uma nota, porque oficialmente eu estava prestando um serviço. Falei: cara, ferrou”, recorda. Após intensas conversas com a Receita Federal e órgãos estaduais, o enquadramento foi solucionado.
Com os entraves superados, Mac Dowell prospectou os primeiros clientes entre bancos e gestoras de sua rede de contatos, superando a desconfiança inicial de antigos concorrentes para fechar o ano de 2019 com resultados positivos. Nos períodos seguintes, a carteira se expandiu para fintechs e grandes marcas como Vivo e Wellhub, com uma projeção de faturamento de R$ 2 bilhões para 2026.
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