Quase metade dos brasileiros ouvidos prefere socializar com amigos online em vez de pessoalmente, segundo a pesquisa Global Trends 2024, da Ipsos. Os participantes têm um perfil mais urbano, escolarizado e de maior renda do que o da população em geral.
Essa tendência não é exclusividade nossa: nos Estados Unidos, o tempo passado com amigos em casas e parques caiu quase pela metade desde 2013, chegando a 1,5 horas semanais em média. Nesse período, aumentaram as idas à academia e as atividades realizadas sem companhia. A convivência diminuiu até mesmo nos programas gratuitos, que poderiam substituir as saídas mais caras.
Além do aumento dos preços de sair para um bar ou restaurante, a conveniência das telas contribui para a mudança, argumenta John Burn-Murdoch, no Financial Times. Receber amigos exige combinar horários, arrumar a casa e aceitar que a conversa talvez seja menos divertida do que esperávamos. Uma noite de vídeos ou de streaming dispensa preparação, e o conteúdo desinteressante pode ser trocado pelo próximo.
Em um experimento, passageiros orientados a conversar com desconhecidos relataram viagens de trem mais agradáveis do que aqueles orientados a ficar sozinhos, segundo Juliana Schroeder, Donald Lyons e Nicholas Epley. Embora breves, as interações sugerem que o prazer da conversa pode compensar o desconforto de iniciá-la.
Em outro experimento, participantes que ficaram quatro semanas sem Facebook relataram maior convivência com amigos e familiares, mas também mais tempo assistindo à televisão sozinhos. Ou seja, apenas reduzir individualmente o uso das redes não garante uma convivência melhor, na medida em que um encontro depende também da disponibilidade e do engajamento de outras pessoas.
Para marcar um jogo de futebol, é preciso reservar a quadra, arrecadar o dinheiro e procurar substitutos. Quem confirma na última hora mantém suas opções abertas, mas, se a maioria fizer o mesmo, o jogo será cancelado. Na próxima tentativa, o organizador lembrará da dificuldade anterior, enquanto os convidados terão mais um motivo para aguardar a confirmação dos demais.
Na prática, queremos os benefícios de uma comunidade, mas adotamos escolhas que dificultam a continuidade dessa comunidade. É a construção desses laços que permite organizar atividades, oferecer ajuda e assumir uma tarefa sabendo que terá com quem dividi-la. O que, por sua vez, sustenta a vida comunitária que vem desaparecendo, conforme a tese do cientista político Robert Putnam no livro “Bowling Alone”.
Já no ativismo político, a cobrança por declarações públicas muitas vezes deixa em segundo plano o envolvimento cotidiano na vida coletiva. Ajudar no bazar da igreja, que arrecada recursos para famílias, participar das decisões do conselho profissional ou da associação de bairro exigem horário, deslocamento e divisão de tarefas. Esse compromisso se manifesta inclusive quando ninguém está acompanhando no feed.
Também grupos de corrida, clubes de leitura e turmas de forró oferecem motivos para encontrar regularmente as mesmas pessoas. Incentivar atividades compartilhadas está entre as propostas de Putnam: alguém pode chegar interessado em aprender a dançar e, ao longo das semanas, passar a combinar um café com os colegas depois da aula.
Na minha rotina, reservo tempo para ler ou colocar as séries em dia e para encontros semanais, como um café, um aniversário ou atividades da igreja. Esses horários são flexíveis e se ajustam às demandas da semana, mas ajudam a conciliar o descanso e a convivência. É uma forma de evitar que a conveniência de ficar em casa decida quanto espaço os outros terão na minha vida.
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