Para muitos usuários, o smartphone já funciona como um aliado indispensável na rotina de autocuidado. O mercado oferece ferramentas para monitorar a pressão arterial, registrar atividades físicas, rastrear o sono, organizar o uso de remédios e receber orientações personalizadas. No entanto, o desafio é identificar quais recursos realmente ajudam o paciente, evitando que o aparelho sirva apenas para acumular notificações e dados desnecessários.
“O bom aplicativo é o que transforma a informação coletada em algo útil para a tomada de decisão ou para a mudança de comportamento”, diz Alexandre Chiavegatto Filho, professor de inteligência artificial em saúde na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Para o especialista, vale a pena observar critérios como a evidência científica do benefício, a simplicidade de manuseio, a personalização e a clareza sobre a origem das recomendações.
Riscos e a ilusão da precisão digital
Ferramentas focadas em registrar hábitos e incentivar exercícios apresentam um perfil de risco diferente daquelas que medem parâmetros clínicos, interpretam exames, apontam arritmias, sugerem diagnósticos ou interferem em tratamentos médicos. “Quanto maior for a influência sobre uma decisão clínica e maior o dano potencial de um erro, mais elevado deve ser o rigor de evidência, validação, segurança, rastreabilidade e supervisão [do aplicativo]”, afirma Grace Marcon Dal Sasso, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS).
Essa cautela deve ser redobrada em plataformas baseadas em inteligência artificial. Como as respostas costumam parecer seguras, convincentes e personalizadas, o usuário pode ser induzido ao erro. “Estar em uma loja de aplicativos, ter muitos downloads ou avaliações positivas não equivale a possuir validação clínica. O consumidor precisa avaliar menos o brilho da interface e mais a sua finalidade, a evidência e o risco de a ferramenta estar errada”, orienta Dal Sasso.
A falsa precisão também merece atenção rigorosa. “Medir continuamente não significa medir corretamente; e um número com duas casas decimais não é necessariamente clinicamente exato”, ressalta a vice-presidente da SBIS. O alerta se estende a relógios inteligentes, sensores e demais acessórios conectados ao celular. A qualidade do resultado depende diretamente do hardware, da metodologia de medição, das condições de uso e da validação científica do dispositivo para o fim a que se destina.
Privacidade de dados e excesso de alertas
Outro ponto crítico envolve a privacidade e a segurança das informações. Como diversas plataformas exigem dados sobre peso, histórico médico, uso de fármacos e rotina de exercícios para funcionar, o usuário deve analisar com cuidado as permissões solicitadas. É fundamental questionar a real necessidade de cada dado coletado, o tempo de armazenamento e as regras de compartilhamento. “Em saúde, uma regra simples é: se o aplicativo solicita muito mais informação do que precisa para seu propósito, é o caso de desconfiar”, pontua Chiavegatto Filho.
As notificações no celular também exigem moderação. Excesso de alertas faz com que avisos cruciais terminem ignorados pelos usuários. O ideal é que o sistema seja seletivo, oferecendo autonomia para personalizar a frequência e o nível de relevância das mensagens enviadas.
O peso da evidência científica
Especialistas reforçam que a aparência moderna e o alto número de downloads não asseguram a eficácia de uma ferramenta. Estudos clínicos são fundamentais para comprovar se a tecnologia realmente entrega os resultados prometidos, indicando para quais perfis de pacientes e sob quais condições ela é recomendada.
“Apenas uma pequena parcela dos aplicativos de saúde disponíveis passa por avaliações rigorosas em ambiente de pesquisa clínica”, ressalta a cardiologista Karla Espírito Santo, líder de Estudos Clínicos Descentralizados e Modelos Inovadores de Trials da Academic Research Organization (ARO), do Einstein Hospital Israelita.
A médica atuou diretamente no estudo conduzido pelo Einstein em parceria com a startup Elfie, cujo objetivo foi verificar se uma intervenção digital baseada em aplicativo conseguiria aprimorar o controle da pressão arterial em portadores de hipertensão.
O que revelam os testes clínicos
Divulgada no final de agosto durante o congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), a investigação acompanhou 930 pessoas com hipertensão descontrolada no Brasil e no Vietnã por meio de um ensaio clínico randomizado. Os voluntários foram divididos entre o cuidado clínico tradicional e o cuidado tradicional aliado ao uso do aplicativo Elfie, focado no acompanhamento de patologias crônicas.
O software integra funções como lembretes de medicação, controle de peso e pressão, materiais educativos, sistema de recompensas e inteligência artificial para enviar feedbacks sobre a adesão ao monitoramento.
Na avaliação global com todos os usuários do aplicativo, a redução da pressão arterial sistólica não apresentou diferença estatisticamente significativa entre os grupos após seis meses. Contudo, ao isolar os pacientes que mantiveram engajamento mínimo com a tecnologia, a queda foi expressiva: uma diminuição de 4,2 mmHg para quem interagiu ao menos uma vez por mês, e de 4,8 mmHg entre os que utilizaram a ferramenta semanalmente durante pelo menos 80% do período do estudo, na comparação com o grupo de controle tradicional.
O monitoramento também revelou outros benefícios colaterais. Os usuários do aplicativo registraram uma probabilidade 36% maior de apresentar melhor adesão aos medicamentos, independentemente da frequência de acesso à interface. “Uma possível explicação é que algumas funcionalidades, como a lista de medicamentos e os lembretes diários, possam ter influenciado esse comportamento, mesmo sem exigir um uso muito frequente do aplicativo”, analisa Espírito Santo.
Além disso, foram constatadas melhorias nas práticas de autocuidado, menor necessidade de intensificar terapias medicamentosas e diminuição nas consultas cardiológicas de urgência. “Nesse sentido, há uma hipótese de que a intervenção digital, ao melhorar a adesão e o autocuidado, tenha ajudado os pacientes a manter a pressão arterial mais controlada com uso de menos medicamentos”, comenta o cardiologista Eduardo Bello Martins, pesquisador da ARO e coautor do estudo.
Praticidade garante a continuidade do uso
Os dados indicam que o maior valor dessas tecnologias está em simplificar a rotina terapêutica. Cerca de 90% dos participantes classificaram o plano de monitoramento pressórico como útil, enquanto aproximadamente 84% confirmaram que os alertas facilitaram a ingestão diária dos remédios.
Além disso, 71,4% dos voluntários consideraram a interface simples de navegar e 78,5% asseguraram que pretendiam continuar utilizando a plataforma após o término da pesquisa. “A facilidade de uso é relevante porque a tecnologia só pode exercer seu efeito se o paciente conseguir e quiser utilizá-la ao longo do tempo. Esse ponto é especialmente importante em doenças crônicas, nas quais o tratamento pode durar décadas, e um aplicativo que imponha dificuldades tende a ser abandonado”, ressalta Karla Espírito Santo.
Apesar dos avanços, os autores alertam que as conclusões não podem ser generalizadas para qualquer sistema disponível no mercado. “Não podemos afirmar, por exemplo, que outro aplicativo reduzirá a pressão arterial em 4 ou 5 mmHg entre usuários engajados, nem que ele produzirá resultados equivalentes em diabetes, insuficiência cardíaca ou outras doenças”, diz Martins. “Da mesma forma, o estudo sugere a importância de oferecer ao paciente orientação e acompanhamento sobre o uso das funcionalidades do aplicativo, de modo que ele possa se engajar e utilizá-lo conforme a orientação do profissional de saúde.”
Em suma, a experiência científica reforça que a popularidade, os recursos tecnológicos avançados e a usabilidade agradável ajudam, mas jamais substituem a validação científica de eficácia e o acompanhamento médico contínuo.
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