Conhecer a Casas del Bosque, situada no Vale de Casablanca a cerca de 70 quilômetros de Santiago, vai muito além de uma simples degustação. O local oferece uma mistura de vinhos frescos e elegantes, rótulos com ótima relação entre preço e qualidade, belas paisagens e projetos sustentáveis. Contudo, o grande destaque da visita são as pessoas. Acima dos vinhedos, da estrutura impecável e dos restaurantes, são os profissionais da casa que transformam o passeio em uma vivência inesquecível.
Criada em 1993 pela família Cúneo, de raízes italianas, a vinícola fica em Las Dichas, na porção mais ocidental do Vale de Casablanca, considerada uma das zonas mais frias do território. A apenas 18 quilômetros do Oceano Pacífico, os parreirais sofrem influência direta do mar. Ventos costeiros, alta amplitude térmica e a camanchaca — neblina típica da manhã na costa chilena — ajudam a abrandar as temperaturas. Combinados com solos pobres e graníticos, esses fatores propiciam o amadurecimento tardio das uvas, mantêm a acidez e geram vinhos frescos, refinados e autênticos.
Um terroir em expansão
Mesmo com a retração na indústria vitivinícola do Chile, a Casas del Bosque segue investindo. Alberto Guolo, diretor técnico e enólogo, avalia que Casablanca é jovem e ainda tem muito potencial oculto. Solos pobres e graníticos, clima gelado e variações térmicas diárias garantem à zona uma vocação natural para bebidas de acidez vibrante. Outro ponto fundamental é a excelente drenagem do solo.
Carlos Carrasco, gerente agrícola, aponta que grandes vinhos mundiais costumam estar ligados a terrenos bem drenados. Jaime de la Barra, CEO da empresa, demonstrou essa realidade em uma calicata — corte profundo no terreno que expõe o perfil do solo —, detalhando como as camadas facilitam o escoamento da água.
Nascido no Vêneto, Guolo defende que o vinho deve ser acessível e ocupar espaço à mesa, acompanhando refeições como na Itália. Por isso, ele prefere extrações mais leves e uso moderado de carvalho. “O vinho tiene que expresar el lugar“, resume. Questionado se o rótulo chileno precisa provar algo, ele relata que sempre leva garrafas de seu país de residência para degustações na Itália, surpreendendo os locais com a qualidade. O enólogo também pesquisa novas variedades, com projetos envolvendo Sémillon, Riesling e o plantio de Albariño.
Portfólio e diversidade de rótulos
A linha Private Reserve abriga os dois ícones da marca: o Gran Bosque, um Cabernet Sauvignon do Vale do Maipo, e o La Trampa, corte de Syrah, Malbec e um toque de Pinot Noir. Já a série Pequeñas Producciones traz edições limitadas de Sauvignon Blanc, Chardonnay, Pinot Noir e Syrah, vindas de parcelas específicas com vinificações variadas e forte apelo gastronômico.
A Handcrafted reconstrói clássicos chilenos com perfil moderno, enquanto a Botanic Series utiliza uvas de parcelas selecionadas para respeitar a natureza. A Botanic Series conta com Sauvignon Blanc La Cantera, Riesling, Chardonnay, Rosé de Pinot Noir, Pinot Noir e Syrah. Conforme Diego Salazar, diretor de vendas para Chile, América Central e do Sul, essa linha responde por 11% do volume e 17% do faturamento da companhia, sendo fundamental para o mercado de restaurantes e para atrair novos consumidores em meio à concorrência com bebidas como o spritz.
Completando o portfólio, a Collection aposta em bebidas frescas e acessíveis de Sauvignon Blanc, Chardonnay, Carménère e Cabernet Sauvignon. Há ainda o Espumante BO, feito pelo método tradicional com Chardonnay e Pinot Noir, e o Late Harvest, um Riesling de colheita tardia afetado pela Botrytis cinerea.
O Brasil como mercado-chave
A relevância do Brasil transparece na comunicação da vinícola. Romina Borzutzky, gestora de marketing, busca aproximar a marca dos brasileiros de forma criativa e disposta a testar novidades. O objetivo é compreender o consumidor do país e estreitar laços que vão além da venda da bebida.
A propriedade atrai perto de 100 mil pessoas anualmente, com forte presença de turistas do Brasil. Passeios de bicicleta, piqueniques, degustações, eventos e casamentos ocorrem em meio a jardins e vinhedos. No entanto, o diferencial está na hospitalidade. Coordenada por Georgianna Cúneo, diretora do vinhedo, a equipe busca entender quem visita o local antes mesmo de falar sobre vinhos. Pamela Villablanca, líder de Turismo e Hospitalidade, aponta que muitos funcionários somam mais de cinco anos de casa, falam português e possuem certificação WSET Nível 2 ou formação de sommelier.
Gastronomia integrada ao território
A experiência se completa com três restaurantes. O Tanino, maior e mais movimentado, une culinária chilena e italiana em pratos harmonizados com os rótulos locais. O Botánico foca em vegetais, ervas e flores da horta orgânica da propriedade, acompanhando o ritmo das estações. No topo da colina, a Casa Mirador entrega uma experiência em nove tempos, com menu elaborado em conjunto pelas equipes de cozinha e enologia, tendo como base os vinhos emblemáticos da marca.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
