A Audi é um dos maiores exemplos de como uma tecnologia pode mudar a imagem de uma marca. Mas no caso do sistema quattro, mudou mais que o destino de um construtor, mudou também para sempre o mundo da competição, em especial, os ralis.
Tudo começou em 1976/77, quando a Audi efetuava os habituais testes de inverno de futuros modelos no norte da Europa. Os engenheiros da marca faziam-se acompanhar por um Volkswagen Iltis, um veículo militar com apenas 75 cv, e repararam que conseguia deixar para trás automóveis muito mais potentes quando a estrada estava coberta de neve e gelo.
O segredo estava, claro, na tração às quatro rodas. Jörg Bensinger, então responsável pelo desenvolvimento dos chassis da marca, percebeu o potencial da tecnologia nos automóveis de estrada. A ideia ganhou o apoio de Ferdinand Piëch, na altura o responsável pelo desenvolvimento técnico da Audi, muitos anos antes de se tornar o todo-poderoso líder do Grupo Volkswagen. O projeto avançou, juntamente com Walter Treser à frente do projeto.
Potência não é tudo
Os primeiros protótipos, desenvolvidos a partir do Audi 80, mostraram que a ideia fazia sentido. Mas havia um problema: os sistemas de tração integral usados nos todo-o-terreno eram demasiado volumosos e pesados para um carro de estrada.
A solução passou por uma transmissão com um veio oco, que permitia distribuir o binário pelos dois eixos através de um diferencial central, dispensando uma caixa de transferência convencional.
Nascia assim um sistema de tração integral permanente suficientemente compacto para ser utilizado num automóvel de estrada, com vantagens na motricidade e estabilidade.
Em 1980, no Salão Automóvel de Genebra, a Audi apresentou finalmente o resultado. Chamava-se simplesmente Audi quattro e seria o primeiro de muitos. E é um dos quatro modelos que escolhemos para contar esta história.
Audi quattro. O original
Para demonstrar o potencial da tecnologia, a Audi não o fez por menos e apresentou um coupé, com guarda-lamas alargados e um motor turbo de cinco cilindros em linha, com 2,1 litros (2144 cm3) e 200 cv. Elementos que ainda hoje associamos à identidade da marca.
Mas era a transmissão do Audi Quattro que fazia verdadeiramente a diferença. Numa época em que a tração integral era sobretudo associada a veículos todo-o-terreno, lentos e pesados, a Audi associou-a a um desportivo capaz de atingir 222 km/h, um valor de respeito na altura.
Não demorou muito até o sistema quattro mostrar o que valia na competição. E Portugal foi o palco escolhido pela Audi para o demonstrar com uma eficácia avassaladora, fazendo soar os alarmes em toda a concorrência.
Ainda em 1980, antes da estreia oficial no Mundial de Ralis em 1981, um Audi quattro participou como carro de abertura no Rali do Algarve, prova do Campeonato Europeu de Ralis. Com Hannu Mikola aos comandos, este quattro de 300 cv foi o mais rápido em 24 das 30 etapas do rali. Se fosse um dos competidores, Mikola e o Audi quattro teriam ganho o rali com uma vantagem de quase meia-hora(!).
A estreia oficial nos ralis aconteceria em janeiro de 1981, no Rali de Jänner, na Áustria, com uma vitória. A primeira vitória no Mundial de Ralis deu-se na Suécia, um mês depois. Seguiram-se os títulos de construtores em 1982 e 1984, e os de pilotos em 1983 e 1984.
Audi Sport quattro S1
Se o quattro original abriu as portas da competição, o Audi Sport quattro S1 levou-o ao extremo para se tornar numa das derradeiras armas do lendário Grupo B.
A primeira grande transformação chegou com o Sport quattro, apresentado em 1983 e produzido numa pequena série para homologação. Tinha uma distância entre-eixos 30 cm mais curta para ganhar agilidade e, na versão de estrada, a potência do cinco cilindros subia para 306 cv.
Mas foi em competição que se tornou um «monstro». O Sport quattro S1 estreou-se nos ralis em 1984, com apenas 1090 kg e uma potência a rondar os 450 cv. Em 1985 estreava a evolução S1 E2 com uma aerodinâmica impossível de ignorar, com enormes apêndices dianteiros e traseiros, e uma potência oficial de 480 cv.
O fim do Grupo B em 1986 não foi o fim do Audi Sport quattro S1. Em 1987, Walter Röhrl levou uma evolução do S1 E2, agora com cerca de 600 cv, à vitória em Pikes Peak, estabelecendo um novo recorde na corrida até às nuvens.
O sistema quattro deixou a a sua marca nos ralis, mas preparava-se para deixar a sua marca também na mais improvável das carroçarias, as carrinhas.
Audi RS2
Depois de ter «virado do avesso» o mundo dos ralis nos anos 80, a Audi iria fazer o mesmo nos anos 90 sobre a definição do que é um desportivo. Em 1994 dava a conhecer a Audi RS2 Avant e o mundo das carrinhas nunca mais foi o mesmo.
Foi o primeiro Audi RS e resultou de uma colaboração entre a marca dos anéis e a Porsche. O ponto de partida foi a Audi S2 Avant e resultou numa super-carrinha capaz de envergonhar muitos desportivos da época.
Debaixo do capô estava o mesmo cinco cilindros em linha de 2,2 litros da S2, mas agora debitava 315 cv, mais 85 cv. A transmissão às quattro rodas era feita através de uma caixa manual de seis velocidades, com a RS2 a ser capaz de atingir os 100 km/h em 5,4s e atingir os 262 km/h de velocidade máxima.
O sistema quattro deixou de servir apenas para ganhar ralis ou enfrentar pisos mais escorregadios. Transformou uma carrinha familiar numa arma capaz de acompanhar desportivos. A sigla RS abriu caminho a uma família de desportivos que ainda hoje são o pináculo da marca e têm nas carrinhas a sua expressão mais simbólica e desejável.
Audi RS 6 Avant
E, por isso, terminamos esta pequena viagem pela história do sistema quattro com outra carrinha RS, a incontornável RS 6 Avant. Ainda chegámos a considerar a nova RS 5, a primeira RS a casar octanas com eletrões, mas seria imperdoável não fazer menção à RS 6, a über-Avant da Audi.
Escolhemos a geração C6, apresentada em 2008, que levou a fórmula da super-carrinha mais longe que nenhuma outra. Ao contrário dos outros quattro desta lista, não tinha um cinco cilindros em linha: tinha dois…
Desculpem a «piada», mas esta é foi a única RS 6 Avant a contar com os préstimos de um colossal motor V10, uma configuração exótica digna de um supercarro. Cinco litros de capacidade, dois turbos, 580 cv e 650 Nm. Na altura, não havia Audi mais potente e era uma carrinha capaz de transportar toda a família e não um desportivo como o R8.
A transmissão às quatro rodas era feita através de uma caixa automática Tiptronic, permitindo à RS 6 alcançar os 100 km/h em apenas 4,6s. Com as opções certas, podia atingir os 280 km/h ou os 303 km/h (RS 6 plus) — uma das formas mais rápidas e seguras de conhecer todas as autobahn sem limites…
Mas não era apenas um familiar muito rápido: era uma demonstração de como a tecnologia quattro tinha evoluído de um modesto veículo militar com 75 cv para ser a solução para domar carros cada vez mais potentes. E o quattro continua a evoluir.
O sistema quattro já é combinado com cadeias cinemáticas híbrida aos anos e podemos mencionar o e-tron GT e outros elétricos da marca, que fazem novas interpretações da tecnologia quattro para a era elétrica.
Pelo caminho passou quase meio século e promete não parar por aqui.
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