Testei o Dacia Spring. Vale a pena esperar pelo novo?

Testei o Dacia Spring elétrico: vale a pena esperar pela nova geração?

Automóveis

O Dacia Spring está prestes a deixar de ser o Spring que conhecemos. A marca romena já apresentou a segunda geração do seu elétrico e, como o Guilherme Costa nos explicou, melhorou em todos os sentidos.

Está maior, tem um visual mais moderno e traz com ele novos argumentos tecnológicos e algumas dezenas de quilómetros adicionais de autonomia. Deverá chegar ainda antes do ano acabar, mas será que vale a pena esperar?

Passei uma semana com o Spring atual para descobrir se ainda tem argumentos que nos levem a optar por esta geração. Afinal, continua a ser o elétrico mais barato do mercado — arranca nos 16 900 euros —, mas há mais argumentos para lá do preço-canhão.

A maior altura ao solo e os detalhes em preto nas cavas das rodas conferem ao Spring um visual de pequeno crossover que lhe assenta bem.

Um citadino simples e intuitivo

O Spring nunca tentou esconder aquilo que é. É um pequeno elétrico pensado para a cidade, com uma carroçaria elevada, dimensões compactas e uma abordagem muito mais funcional do que emocional.

O desenho tem uma certa honestidade — não tenta ser algo mais daquilo que não é —, mas ficou bem mais apelativo com a atualização de 2024. Admito, no entanto, que acho o desenho do sucessor muito mais interessante.

O Spring atual é um carro pequeno por externo e isso nota-se quando interessa: estacionar é fácil, a visibilidade é boa e a carroçaria não exige grandes cuidados quando temos de nos espremer por uma rua mais apertada.

No interior é onde o Spring revela mais claramente a idade do projeto. Dito isso, tal como o exterior, também o habitáculo melhorou bastante com a atualização de 2024.

O desenho do tabliê é mais moderno, há um painel de instrumentos digital de 7″ e um ecrã central de 10″ para o sistema de infoentretenimento. Há também vários espaços de arrumação e comandos físicos que tornam particularmente fácil utilizá-lo no dia a dia.

Mas não há milagres. Os materiais são maioritariamente duros e a sensação de qualidade está longe daquilo que encontramos, por exemplo, num Renault Twingo ou… no novo Dacia Spring. A montagem, contudo, cumpre como comprova a escassez de ruídos parasita, mesmo nas ruas mais esburacadas das nossas cidades.

Espaço interno e habitabilidade

Sendo um dos modelos mais pequenos do mercado, não seria de esperar que o Spring fosse o rei da habitabilidade. E não é. Os quatro lugares são utilizáveis, mas os traseiros acabam por ser mais indicados para crianças ou adultos de pequena estatura.

Já a bagageira, com 288 litros, é surpreendentemente generosa para um carro desta dimensão e até é maior que a do seu sucessor.

A posição de condução também não é problemática e, depois de alguns quilómetros, deixamos de pensar naquilo que mais nos recorda da antiguidade do projeto: a escassa largura do habitáculo.

Um citadino sem medo da autoestrada

Este ano o Spring ganhou um argumento novo: potência. A introdução da variante de 100 cv mudou completamente a relação deste pequeno Dacia com a estrada.

Com pouco mais de uma tonelada, tornou o Spring mais ágil em cidade e, sobretudo, deu-lhe uma margem de segurança que as versões anteriores não tinham.

Só há um modo de regeneração, o “B”, mas chega para gerir a travagem regenerativa. Só é pena é que o seu acionamento nem sempre seja imediato.

Face ao Spring original, são mais 55 cv e até é mais potente que o novo Spring, que não vai além dos 82 cv. A potência extra dá-nos um à vontade adicional a entrar numa via rápida ou até numa ultrapassagem.

Calma, o Spring não se tornou, de um momento para o outro, o «senhor da autobahn», mas durante a semana que o conduzi, enfrentei sem receios a estrada aberta e a autoestrada e raramente senti que estava fora do seu habitat.

Além da potência adicional, o Spring recebeu ainda melhorias no campo da dinâmica. Ganhou uma barra estabilizadora e novos acertos para as molas e amortecedores, o que reduziu as inclinações da carroçaria e tornou o comportamento mais previsível.

Com pneus estreitos e suspensão alta, o Spring continua a não ser o melhor para procurar estradas de montanha, mas está bem melhor quando sai da cidade. A direção é leve, a carroçaria movimenta-se menos e a sensação geral é de maior controlo.

Os pneus de perfil alto ajudam no conforto, mas não muito na dinâmica.

O conforto a bordo também é razoável. A suspensão consegue lidar bem com muitas irregularidades e, em cidade, a combinação entre dimensões reduzidas, motor elétrico e suspensão relativamente macia resulta num carro fácil e até divertido de conduzir. Dei por mim a serpentear entre o trânsito como há muito não fazia.

Autonomia e eficiência

Por fim, não posso deixar de elogiar um dos pontos fortes do Spring: a eficiência. À primeira vista a pequena bateria de 24,3 kWh não impressiona, mas os números da ficha técnica não contam a história toda.

Com um consumo anunciado de 12,4 kWh/100 km — que consegui baixar sem grande dificuldade para valores em torno dos 10 kWh/100 km —, o pequeno Dacia Spring não deve ter dificuldade em atingir os 225 km de autonomia oficial.

O que nos permite alargar o horizonte bem para lá das cidades para onde foi pensado, especialmente quando selecionamos o modo “Eco”. Ao contrário do que esperava, não compromete em excesso as prestações.

Ao longo de uma semana usei-o como o meu único veículo e rapidamente perdi a ansiedade de autonomia. Acabei por ir com o Spring a todo o lado, incluindo em viagens mais longas.

E a reduzida capacidade da bateria acabou por se tornar um ponto forte do citadino, já que consegui carregamentos rápidos sem necessitar de potências absurdas.

O Spring suporta carregamentos em corrente alternada (AC) com potências de até 7 kW e, no caso da unidade ensaiada, graças ao opcional Pack Power, suporta carregamentos rápidos em corrente contínua (DC) com potências de até 40 kW.

Preço e conclusão

E chegamos ao principal argumento do Dacia Spring: o preço. Por 16 900 euros trazemos para casa um citadino elétrico e, por mais que a concorrência tenha evoluído, continua a não existir um modelo elétrico tão barato. Aliás, até a combustão não há muitos.

Mas esse é o valor da versão base. A versão electric 100 extreme que testei é mais cara, fixando-se nos 19 707 euros. Com os opcionais que a unidade ensaiada tinha, sobe para os 22 414 euros. Um valor que se torna difícil de justificar face aos rivais mais recentes e modernos e, sobretudo, face ao seu iminente sucessor.

Por um valor semelhante já se encontra disponível o Renault Twingo E-Tech, provavelmente o rival mais interessante e colorido do momento, com preços a começar nos 19 490 euros. Tem 82 cv, bateria de 27,5 kWh e até 264 km de autonomia (ciclo combinado WLTP). É, objetivamente, um automóvel mais moderno e completo. E é também a base do próximo Spring.

Se não quer esperar pela nova geração, o único Dacia Spring atual que continua a fazer sentido é a versão base. Tem 70 cv e perde em prestações, mas para quem procura um elétrico pequeno, simples e barato continua a ser uma opção a considerar.

É fácil de conduzir, gasta pouco e tem espaço honesto. No fundo, parece um utilitário saído dos anos 90 e a verdade é que ainda há quem procure exatamente isso.

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