A integração da inteligência artificial (IA) nas escolas brasileiras tem transformado o processo pedagógico em diferentes etapas do ensino fundamental e médio. Ao combinar inovação e sensibilidade, educadores têm adotado ferramentas generativas para aproximar as disciplinas da rotina dos estudantes, despertar vocações e tornar o aprendizado mais atrativo.
Um exemplo prático desse movimento ocorreu em Campinas (SP). A professora Giovanna Macedo aproveitou a clássica pergunta infantil sobre planos para o futuro para criar um projeto visual com auxílio do ChatGPT. A docente fotografou seus 31 estudantes do 4º ano do ensino fundamental da Escola Estadual Professor Carlos Cristovam Zink, situada na periferia do município, e utilizou a tecnologia para simular como as crianças de 9 e 10 anos ficariam quando adultas, atuando nas profissões com as quais sonham. O registro das reações dos pequenos diante de imagens em que apareciam como veterinários, astronautas, bailarinas, cantores, artistas e jogadores de futebol ganhou enorme repercussão na internet.
A educadora ressalta que o objetivo principal foi encurtar a distância entre o presente e o futuro na imaginação das crianças: “Para mim, como professora, é muito significativo criar situações em que os alunos se sintam valorizados e vejam que alguém acredita neles, que têm potencial para irem além.”
Aos 27 anos, Giovanna completou no último dia 15 de outubro oito anos de magistério, carreira que abraçou em 2018. Mesmo sem capacitação técnica formal prévia em inteligência artificial, ela recorre a essas soluções de forma intuitiva para ilustrar conteúdos didáticos: “Mais do que utilizar uma tecnologia nova, nosso papel é encontrar formas de despertar a curiosidade das crianças, fortalecer a autoestima e ampliar os horizontes delas. Quanto mais conseguirmos mostrar o que são capazes de aprender, criar e sonhar, mais sentido terá o nosso trabalho.” A professora agora planeja cursar uma especialização voltada a metodologias e didática. “Gostaria que experiências como essa inspirassem outros educadores a explorar novas metodologias e a pensar em maneiras criativas de aproximar os conteúdos escolares da realidade dos alunos.”
Cultura digital e o desafio da mediação
A substituição gradual de materiais tradicionais por ferramentas digitais exige das instituições de ensino um cuidado redobrado sobre como transformar o excesso de dados em aprendizado sólido. Esse alerta é reforçado por Kassula Correa, diretora-geral da Start Anglo Bilingual School, instituição privada localizada no Rio de Janeiro.
“Uma criança pode ter facilidade para mexer no celular e, ainda assim, não saber pesquisar com profundidade, identificar uma informação falsa ou compreender os riscos de compartilhar determinados dados”, pondera a gestora.
Para Kassula, a adoção de novas tecnologias deve respeitar o ritmo individual e a convivência interpessoal: “Precisamos oferecer ferramentas, formação e condições para que o professor consiga ensinar a essa geração em que cada criança tem seu ritmo, suas dúvidas e sua maneira de aprender.” Ela complementa que “por mais que a tecnologia avance, a escola continua sendo um lugar de relações humanas. É onde a criança aprende a conviver, a lidar com dificuldades, a se conhecer e a descobrir do que é capaz.”
Capacitação e apoio ao trabalho docente
A necessidade de treinamento contínuo é apontada como pilar essencial tanto para professores veteranos quanto para quem acaba de sair da universidade. O mestre e doutorando em Educação Marcio Luiz Dias, que atua há 13 anos na formação do corpo docente da rede pública do Distrito Federal pela Secretaria de Estado de Educação (SEEDF), observa que “no campo digital, as mudanças ocorrem em velocidade tão rápida que torna praticamente impossível que o currículo das faculdades esteja sempre atualizado.”
Sobre o receio de parte dos profissionais quanto ao uso da IA, Marcio afirma que se trata de uma realidade irreversível: “É algo que se popularizou há relativo pouco tempo, mas que tem ampliado sua presença de forma rápida e abrangente.” Conforme o especialista, as diretrizes do DF buscam conduzir o tema para além da simples operação de softwares: “O Currículo em Movimento das Escolas Públicas do DF preconiza que a formação continuada extrapole o uso instrumental das tecnologias e passe para o uso crítico, colaborativo e focado na intencionalidade pedagógica.”
Kassula Correa também ressalta que as vivências tradicionais devem ser respeitadas durante essa transição: “Muitos deles desenvolveram estratégias incríveis de ensino usando quadro, livros, papel e muita criatividade. O que precisamos é aproximar esses profissionais das novas possibilidades, respeitando suas trajetórias.”
Além da didática, a automação com IA pode reduzir a sobrecarga de tarefas burocráticas e rotineiras, devolvendo tempo ao educador. “Nós professores nos vemos com uma série de rotinas burocráticas, repetitivas, cansativas que, embora essenciais para o andamento da escola, tomam nosso tempo para estudar, planejar aulas, testar formatos e adequações, bem como acompanhar de maneira mais próxima nossos estudantes”, pontua Marcio Luiz. Contudo, Kassula reforça que a tecnologia não substitui a sensibilidade pedagógica: “A qualidade do ensino continua dependendo da capacidade de transformar os recursos tecnológicos em experiências que ajudem o aluno a aprender. Avaliar o desenvolvimento de uma criança exige compreender seu percurso, suas dificuldades e seus avanços.”
Inovação na prática do ensino médio
No Centro de Ensino Médio Integrado à Educação Profissional (CEMI) de Taguatinga (DF), o professor Jaime Guilherme de Oliveira leciona computação gráfica para jovens de 14 a 18 anos, faixa em que muitos não dispõem de computador em casa. Ele se capacitou por meio da Escola de Formação Continuada dos Profissionais da Educação (EAPE), cursando programas de Linguagens Digitais e IA na Prática Docente, além de pós-graduação em Proficiência em Tecnologias Digitais para uma Educação Empreendedora.
Com esses conhecimentos, Jaime aplica a IA no planejamento das aulas, na elaboração de avaliações adaptadas para alunos neurodivergentes e na criação de jogos pedagógicos. Um deles é o “Arena ABNT”, desenvolvido no ChatGPT para ensinar normas técnicas de escrita de maneira lúdica. O professor reforça que “a ferramenta pode fazer muito por nós, mas a intenção, a sensibilidade, o pensamento crítico e a responsabilidade continuam sendo essencialmente humanas.”
O papel do letramento digital
Para evitar o uso da tecnologia apenas como atalho de cópia sem reflexão, os educadores salientam a importância do pensamento analítico. Marcio Luiz ressalta que “o letramento digital deva atuar fortemente contra riscos, como aplicação de golpes e fakenews propagadas pelas redes sociais, bem como de se tornar uma fonte de novos aprendizados dos quais a pessoa necessite no campo pessoal ou da cidadania.” O formador reitera: “Reconheço que isso não é fácil, mas o caminho do letramento digital, da formação docente, de estipular e cobrar a análise, a síntese e a argumentação do aluno já foram testados com sucesso.”
Jaime Guilherme complementa a visão ao frisar que “quando existe uma intenção clara, a ferramenta amplia o alcance de quem já tem algo a dizer.”
Regulamentação nacional e conectividade
Diante do avanço dessas ferramentas, o Ministério da Educação (MEC) prepara a publicação de uma resolução inédita para orientar o uso da inteligência artificial na educação básica de forma ética e segura. De acordo com o órgão, “a partir da resolução, o país passa a contar, de forma inédita, com um parâmetro nacional unificado para orientar a adoção consciente e ética da inteligência artificial em todas as etapas de ensino.”
Paralelamente, o governo mantém a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec). Em julho deste ano, o balanço indicou que 108.658 unidades escolares contavam com conexão adequada à internet — níveis 4 e 5 do Indicador Escolas Conectadas (Inec) —, número que representa 78,7% das 138.086 instituições públicas monitoradas em todo o território nacional.
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