A bola está com a liderança

Quem será o novo ministro da Fazenda importa menos do que os gastos públicos

Mercados

O debate sobre quem assumirá o comando do Ministério da Fazenda ignora o verdadeiro obstáculo para a queda dos juros no Brasil: a expansão descontrolada das despesas públicas. Enquanto circulam apostas sobre a permanência de Dario Durigan ou a chegada de novos nomes como o vice-presidente Geraldo Alckmin e o governador do Piauí Rafael Fonteles, a raiz da política monetária restritiva é negligenciada pela cúpula do poder.

Os juros básicos da economia nacional estão patamar elevado não por falhas operacionais do Banco Central, mas porque a alta forçada dos juros é a única barreira contra uma inflação muito mais intensa. Afrouxar a taxa monetária sem bases sólidas repetiria o insucesso do período entre 2011 e 2014, cujos impactos foram severamente negativos.

Gastos públicos e inflação

O cenário de juros reais altos decorre de uma dinâmica clara: o avanço das despesas primárias supera de forma constante o ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB), em um momento em que a atividade econômica opera em plena capacidade.

Com exceção de 2003 — quando as despesas reais caíram 3,9% frente a um crescimento de 1,1% da economia — e de 2025, período em que os gastos subiram 1,9% e o PIB avançou 2,3%, todos os demais anos dos governos liderados por Lula registraram despesas primárias subindo acima da atividade econômica.

Nesse histórico, a média anual de alta dos gastos primários reais alcançou 7,8%, enquanto a expansão da economia ficou em 4%, quase a metade. Essa expansão constante das despesas públicas sobre a base material do país gera pressão inflacionária contínua e, por consequência, mantém as taxas de juros em patamares elevados de maneira permanente.

O desafio da liderança

Apesar da dinâmica econômica, o presidente Lula não parece associar o avanço sistemático dos gastos públicos ao patamar elevado das taxas de juros.

Dessa forma, a troca no comando da pasta econômica perde relevância prática. Caso o governo não implemente políticas que atrelem o crescimento das despesas primárias a um ritmo igual ou inferior ao avanço do PIB, a taxa básica não recuará de forma sustentável — e qualquer tentativa de forçar uma baixa pelo Banco Central apenas impulsionará a inflação.

Mesmo um gestor elogiado como o ministro Fernando Haddad esbarrou na resistência da liderança política em aprovar as reformas necessárias para desacelerar o ritmo dos gastos.

Aumento de arrecadação por meio do corte de subsídios e de benefícios fiscais ajuda a elevar o superávit primário, o que melhora a trajetória da dívida pública e diminui o risco-país de forma indireta. Contudo, para derrubar de fato os juros reais, o controle direto sobre o crescimento do gasto primário é incontornável. Enquanto esse cenário não for aceito pela Presidência, o custo do crédito continuará alto.

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