Num jantar em Palo Alto, na Califórnia, Martin Carnoy, professor da Universidade de Stanford e um grande especialista em economia da educação, destacou: a educação até pode ajudar, porém, não corrige um jogo muito viciado contra os negros. Essa reflexão serve de base para compreender os paradoxos que envolvem a ascensão social, a escolaridade e o racismo estrutural.
A frase marcou a trajetória de quem nasceu em uma família de baixa renda e encontrou na instrução o caminho para alcançar lugares improváveis. Esse debate centraliza a obra “Poder e Preconceito: O Estado e a Discriminação Racial no Brasil, Estados Unidos e Nova Escócia”, desenvolvida em parceria com Carnoy. Após um período de trabalho em Stanford, a obra ganha lançamento no Brasil a partir de quarta-feira, 4 de novembro, com caravana passando por Salvador, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.
Até que ponto a educação promove mobilidade social? E até que ponto legitima a reprodução das desigualdades?
Uma jovem pobre pode concluir a universidade e alcançar condições melhores que as dos pais. Isso é mobilidade social. Entretanto, se os filhos das famílias ricas continuarem concentrando as credenciais mais valorizadas, a hierarquia social permanece quase intacta. O sistema educacional distribui parte dessas credenciais e influencia quem ocupa posições de prestígio. Como notas e diplomas são associados a talento, diferenças produzidas por oportunidades desiguais passam a parecer fruto apenas do mérito individual. Assim, a educação confere legitimidade a uma competição em que os participantes largaram de posições diferentes.
Diferenças persistentes e o mercado de trabalho No livro, as três sociedades são comparadas. Mesmo com histórias distintas, persiste o padrão segundo o qual trabalhadores negros recebem menos que os brancos mesmo com escolaridade semelhante. Se pessoas com diplomas equivalentes enfrentam oportunidades econômicas distintas, o problema ultrapassa a educação recebida. É preciso também olhar para o mercado de trabalho.
A escolaridade ajuda na disputa pelos bons empregos. Entretanto, a discriminação influencia quem consegue ocupá-los. Além disso, se todos estudarem mais, mas a quantidade de bons empregos continuar a mesma, haverá mais pessoas qualificadas disputando poucas oportunidades. Ter um diploma, por si só, não garante acesso a uma ocupação melhor.
Em vários momentos do livro, não usamos somente dados, mostramos também como a história ajuda a compreender isso. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, trabalhadores negros nos EUA passaram a ocupar empregos industriais mais bem remunerados, sem depender de uma elevação prévia de sua escolaridade. Isso contribuiu para reduzir diferenças salariais.
Investir em escolas de qualidade, sobretudo para crianças pobres, continua indispensável. Contudo, nossa análise indica que a ação pública também precisa alcançar as regras do mercado de trabalho. Combater a discriminação nas contratações e ampliar o acesso aos empregos mais bem pagos são condições para que os diplomas tenham valor semelhante para negros e brancos.
Hoje, posso dizer que, por meio de muito esforço, a educação mudou minha vida. Sei, por experiência própria, que ela abre portas antes inimagináveis. Porém, para isso, os desfavorecidos precisam se esforçar muito mais e abrir mão de muita coisa. E, no final, mesmo com muito empenho, a triste realidade é que nem todos conseguem atingir seus objetivos.
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