Paul Greengrass é um dos cineastas britânicos mais marcantes de sua geração. O diretor, conhecido por seu uso de câmera na mão, realismo com estilo documental e abordagem visceral da ação, influenciou toda uma geração no cinema. Da turbulência política retratada em Domingo Sangrento (2002) até as emoções eletrizantes da franquia Bourne, Greengrass constantemente impressiona o público com sua realização cinematográfica fascinante e extraordinária.
Praticamente qualquer lançamento cinematográfico sobre uma história real que não atinge totalmente as expectativas hoje em dia levanta a pergunta: “o que o Greengrass teria feito?”. Não há dúvidas, por exemplo, de que ele foi o homem que transps para as telas os horrores dos ataques de 11 de setembro de forma mais eficaz, com o angustiante e impressionante Voo 93, lançado em 2006.
A partir de suas raízes em dramas contundentes, sua transição para o cinema de ação em Hollywood demonstrou que seu estilo único poderia entregar entretenimento espetacular. Quando ele aceitou o desafio de comandar o segundo filme da franquia Bourne, A Supremacia Bourne (2004), um longa brutal e brilhante, ele mudou para sempre a face do cinema de ação.
Com o recente lançamento de The Uprising, voltamos no tempo para classificar cada longa-metragem dirigido por Greengrass, analisando o trabalho de um dos cineastas mais fascinantes e influentes do cinema moderno.
13. A Teoria do Voo (1998)
É difícil escolher qualquer filme para colocar na última posição desta lista, pois Greengrass nunca fez um filme ruim. No entanto, A Teoria do Voo é talvez o seu trabalho menos realizado. O filme é estrelado por Kenneth Branagh no papel de Richard, um artista excêntrico obcecado pela ideia de voo humano. Após uma tentativa desastrosa de se lançar de um prédio usando asas caseiras, ele é condenado a prestar serviços comunitários, o que o aproxima de Jane (Helena Bonham Carter), uma mulher independente que convive com uma doença do neurônio motor.
A dupla desenvolve uma relação sem cair em uma fantasia romântica convencional, construída em torno de duas atuações memoráveis e um enredo bastante peculiar. Contudo, esta é uma narrativa sobre independência, amizade e, acima de tudo, o desejo de viver a vida ao máximo. Greengrass nunca teve medo de explorar temas desconfortáveis, e este é um documento fascinante sobre um filme que ele realizou antes de alcançar a fama.
Trata-se de uma entrada inicial marcante em sua filmografia e, embora possa carecer de parte da urgência vista em seus trabalhos posteriores, é inegável que ainda se trata de uma obra muito sólida.
12. Relatos do Mundo (2020)
Paul Greengrass mergulha na Guerra Civil Americana em Relatos do Mundo, acompanhando o ex-capitão confederado Jefferson Kyle Kidd (Tom Hanks) em sua jornada pelo Texas, onde ganha a vida lendo histórias de jornais em voz alta para públicos pagantes. Ao encontrar Johanna (Helena Zengel), uma jovem órfã criada pelo povo Kiowa, ele aceita relutantemente escoltá-la até seus parentes, que vivem a centenas de quilômetros de distância.
O filme representa um afastamento notável do estilo de câmera na mão presente em trabalhos anteriores de Greengrass, servindo em alguns aspectos como prova de sua facilidade para alternar entre gêneros. Relatos do Mundo é um faroeste comedido e eficaz, contando com Tom Hanks e Helena Zengel em excelente forma como o par central.
Embora o longa não esteja no mesmo patamar de seus melhores trabalhos, ele comprova a versatilidade de Greengrass. A produção também traz um subtexto interessante sobre desinformação e o poder da narrativa. É sem dúvida um dos filmes mais seguros e possivelmente o mais convencional desta lista, mas ainda assim consistente.
11. The Uprising (2026)
O mais recente trabalho de Greengrass é mais um exemplo de sua expansão de horizontes, utilizando desta vez a Revolta dos Camponeses de 1381 como pano de fundo. The Uprising traz Andrew Garfield no papel de um lavrador inglês enlutado que se une a uma rebelião contra a tributação opressiva e o poder enraizado do governo do Rei Ricardo II. Conforme a revolta se espalha em direção a Londres, os rebeldes se dividem quanto aos seus objetivos, enquanto a Coroa tenta retomar o controle.
Greengrass reimagina um momento crucial da história inglesa, explorando o conflito entre pessoas comuns e a classe dominante. Como esperado, o resultado é instigante e visualmente impressionante. Embora o estilo visual inquieto possa se tornar ligeiramente distrativo aqui, a câmera trêmula se mostra especialmente eficaz nas sequências de batalha; em outros momentos, porém, parece um tanto desnecessária e resulta em um filme que, embora marcante, por vezes soa desalinhado consigo mesmo.
O final da história, sem revelar detalhes, tem gerado críticas por parte daqueles que consideram a conexão proposta pelo longa um tanto desajeitada, a ponto de afastar o espectador do que acabou de presenciar. No entanto, na maior parte do tempo, The Uprising reafirma o poder extraordinário de narrativa de Greengrass, colocando o público bem no centro de um evento histórico de imensa importância.
10. Jason Bourne (2016)
Após o trabalho estrondoso em A Supremacia Bourne (2004) e O Ultimato Bourne (2007), Greengrass e Matt Damon afirmaram que aquela era o fim da saga e que outro capítulo só ganharia vida caso encontrassem a história certa. Quase uma década após O Ultimato, parece que eles a encontraram: o enredo mostra Nicky Parsons (Julia Stiles) descobrindo informações sobre os antigos programas de vigilância da CIA e sobre o passado do próprio Bourne.
Parece familiar? Pois bem, isso acontece porque Jason Bourne é literalmente o que o título sugere: um filme de Jason Bourne. Desta vez, o elenco recebe Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Riz Ahmed e Vincent Cassel, todos parecendo se divertir muito ao lado do Bourne de Damon, que profere apenas meia dúzia de falas ao longo de toda a projeção. Felizmente, com Greengrass atrás das câmeras, Jason Bourne prova ser extremamente divertido e serve como um exemplo perfeito de como fazer o quarto filme de uma franquia funcionar tão bem.
Pode ser que o longa não traga nada que o público já não tenha visto antes, mas as sequências de ação continuam fenomenais, culminando em uma perseguição de carros destruidora de metais na Las Vegas Strip. Pode ser o menos essencial dos filmes da franquia Bourne, mas ainda assim entrega um entretenimento eletrizante.
9. Resurrected (1989)
Trata-se de um dos filmes mais importantes do catálogo de Greengrass, não apenas por marcar sua estreia na direção de longas-metragens, mas também devido à temática abordada. A falha institucional e a manipulação da opinião pública foram temas centrais que viriam a se tornar pilares em futuros filmes de Greengrass. O fato de The Uprising lidar com questões semelhantes faz com que sua carreira feche um ciclo de certa forma.
Resurrected narra a história de Kevin Deakin (interpretado por David Thewlis), um soldado britânico dado como morto durante a Guerra das Malvinas, que retorna para casa semanas depois. Após sobreviver a uma explosão e ser deixado para trás no campo de batalha, ele consegue retornar à Grã-Bretanha e, inicialmente, recebe uma recepção de herói. Contudo, a desconfiança logo dá lugar à hostilidade com a propagação de boatos de que ele teria abandonado seus companheiros.
Histórias focadas em soldados que retornam da guerra frequentam as telas de cinema há décadas, mas Greengrass consegue criar algo que parece genuinamente original. Thewlis está soberbo, entregando uma das melhores atuações de sua carreira ao dar vida a um homem cuja verdadeira história se torna aparentemente irrelevante depois que as pessoas decidem que suas próprias opiniões são mais importantes. Embora o filme mantenha em parte um estilo televisivo, Resurrected funciona como um excelente projeto inicial para um cineasta que viria a se tornar um dos melhores do mundo.
8. Zona Verde (2010)
Considerado por muitos o filme mais subestimado de Greengrass, este thriller ambientado na Guerra do Iraque chegou logo após o que se pensava ser a conclusão da trilogia Bourne, lançada no ano anterior. Novamente estrelado por Matt Damon, Zona Verde foi apelidado de “Bourne no Iraque”. Embora tal rótulo faça um desserviço à obra, é possível traçar paralelos mais positivos a partir dessa comparação do que se imagina. Damon interpreta Roy Miller, suboficial chefe do Exército dos Estados Unidos cuja unidade tem a missão de localizar armas de destruição em massa supostamente armazenadas pelo país. Após encontrar repetidamente locais vazios, Miller passa a questionar a inteligência por trás da missão e, com Martin Brown (Brendon Gleeson) oferecendo uma versão diferente dos eventos, ele decide investigar um possível acobertamento.
O trabalho de câmera na mão faz milagres no cenário iraquiano, e a edição rápida confere uma intensidade real às operações militares, com a mesma eficácia vista nos filmes de Bourne. Damon está em ótima forma e divide a tela com Gleeson, Greg Kinnear, Amy Ryan, Khalid Abdall e Jason Isaacs (que se destaca de maneira particular), completando um elenco que atua no ápice de suas capacidades.
Muitos bons filmes já foram feitos sobre a Guerra do Iraque — assim como muitos ruins —, mas o estilo de Greengrass oferece uma perspectiva diferenciada sobre o conflito, permanecendo como uma obra subestimada que merece ser reavaliada.
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