Apoios de 80% aos carros elétricos são “manobra de marketing” diz ACAP

Subsídios de 80% para carros elétricos são manobra de marketing

Automóveis

O Governo anunciou esta semana um novo programa de incentivos à compra de carros elétricos, com comparticipações que podem chegar aos 80% para as famílias com menores rendimentos. Contudo, a medida está longe de convencer a Associação Automóvel de Portugal (ACAP), que representa as empresas do setor automóvel no nosso país. Em declarações exclusivas, Helder Pedro, secretário-geral da associação, mostrou-se bastante cético quanto à eficácia do programa.

“É um bocadinho de manobra de marketing”, afirmou o secretário-geral da ACAP, quando questionado sobre o impacto que esta medida poderá ter no mercado automóvel português. Para a entidade, o problema não está na intenção de apoiar as famílias mais carenciadas, que considera positiva, mas nas condições de acesso e na capacidade financeira dos potenciais beneficiários.

Um apoio de 80% que pode não chegar

Este novo incentivo apresentado pelo Ministério do Ambiente e Energia destina-se a dois grupos beneficiários: consumidores abrangidos pela Tarifa Social de Energia Elétrica e famílias com rendimentos anuais inferiores a 11 572 euros. O programa destina-se à comparticipação de até 80% do custo de aquisição de um elétrico novo, excluindo IVA e sujeito a um limite de 15 mil euros antes de imposto. Ou, no caso da entrega de um carro para abate, de 16 mil euros.

Para Helder Pedro, estas são condições que podem dificultar a aplicação prática desta medida, até porque, recorda, o facto das famílias abrangidas terem rendimentos particularmente baixos, levanta dúvidas sobre a capacidade para suportarem a parte do preço que não é comparticipada pelo Estado.

“Dentro da Tarifa Social de Energia Elétrica, vemos com muito ceticismo que haja aqui uma procura”, referiu. E recorda que “é pena” que os clientes particulares que não são abrangidos por este enquadramento mantenham o mesmo apoio à compra de elétrico que já era conhecido e que em 2026 esgotou em menos de duas horas.

ACAP pede apoios mais abrangentes

Com este novo programa o Governo pretende apoiar a aquisição de cerca de 20 mil automóveis elétricos, destinados às famílias com menores rendimentos. Mas Helder Pedro considera que seria mais eficaz disponibilizar um número semelhante de incentivos gerais à compra de elétricos, sem os mesmos critérios de vulnerabilidade económica.

Recorde-se que, para particulares, o apoio para a compra de veículos 100% elétricos ligeiros de passageiros novos até 38 500 euros (IVA incluído) em 2026 foi de 4000 euros, distribuídos por apenas 1375 incentivos, que esgotaram em menos de duas horas. A este nível, Helder Pedro esperava novidades e um incremento de incentivos disponíveis: “Aquele número (1375 incentivos em 2026) que esgota em cinco minutos deveria ser 10, 15 ou 20 mil carros”, confessou, admitindo que este incentivo deveria estar ligado “a um plano de abate robusto”.

Sobre isso, e em resposta ao facto deste novo apoio para famílias carenciadas vir acompanhado por um incentivo ao abate majorado no valor de 1000 euros, Helder Pedro revela que “em 2009 já tivemos um programa de incentivo ao abate no valor de 1250 euros”, admitindo que “o valor podia ser realmente superior para incentivar mais sob penas das pessoas não entregarem o carro (velho)”.

Para o secretário-geral da ACAP, estes incentivos agora anunciados são “positivos”, mas insuficientes para produzir uma mudança significativa na idade do parque automóvel português. “São meros paliativos”, afirmou Helder Pedro.

Recorde-se que, apesar de já serem conhecidos alguns dos critérios de acesso, ainda falta publicar o regulamento definitivo, esclarecer os procedimentos de candidatura e anunciar quanto estarão disponíveis estes novos apoios para a compra de carro elétrico em Portugal.

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