Ben Jor, que faz show em SP, resumiu história do café em música 'esquecida'

Jorge Ben Jor contou a história do café no Brasil em música

Gastronomia

Com uma discografia repleta de crônicas sobre o cotidiano e a identidade nacional, Jorge Ben Jor transformou a trajetória socioeconômica do café no Brasil em poesia ritmada. Em uma obra rara de seu repertório, a faixa intitulada “Café” aborda a trajetória dessa “planta maravilhosa e originária da Etiópia”, combinando acontecimentos históricos essenciais a um refrão cativante: “Meu amor, meu amor / Me faz um cafezinho / Com aroma e com carinho”.

O contrabando das primeiras mudas no século 18

Na letra, o artista revisita a introdução da planta em solo brasileiro logo nos versos iniciais: “Em 1727, um nobre / chamado Palheta / trouxe a cultura do café / para o Brasil”.

O episódio remete à missão de Francisco de Mello Palheta na Guiana Francesa. Cumprindo ordens de João Maia da Gama, autoridade máxima do Maranhão e Grão-Pará, Palheta conseguiu driblar a rígida fiscalização local — imposta para resguardar o comércio europeu em ascensão — e surrupiou exemplares da lavoura. Ao retornar a Belém, carregava consigo cinco mudas e mais de mil sementes, plantando a semente da atividade agrícola que lideraria a pauta exportadora nacional por cerca de dois séculos.

Crise econômica e a queima de estoques nos anos 1930

A composição avança no tempo para tratar de um período turbulento da produção cafeeira paulista. Ben Jor canta: “Depois vieram os barões / do café / um cartel que mandava / queimava, jogava fora / mas não dava”.

A estrofe retrata as consequências do crescimento descontrolado dos cafezais no Oeste Paulista durante os anos 1920, agravado pelo colapso da Bolsa de Nova York em 1929. Diante do excedente sem compradores — que atingiu 26 milhões de sacas em estoque em 1930, superando toda a demanda global de um ano —, o governo interveio drasticamente. Para conter a queda nos preços, a União comprou e destruiu 78,2 milhões de sacas de 60 kg entre 1931 e 1944, montante correspondente a quase três anos do consumo mundial daquela época.

Das encostas da Tijuca aos desfiles de Carnaval

A faixa também conecta a expansão agrícola ao território fluminense, lembrando o plantio na Floresta da Tijuca ao rimar: “O preto que virou ouro / nas terras do Salgueiro”.

A referência serviu de inspiração direta para a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, que desenvolveu o enredo “O negro que virou ouro nas terras do Salgueiro” no desfile de 1992. Carregado de teor crítico, o samba da agremiação entoava: “O ciclo do café era a riqueza / fausto e luxo da nobreza / e suor da escravidão / sonso, vira rico e rotina / filosofia de esquina / cafezinho no balcão”. Apesar de conquistar a quarta colocação, a agremiação marcou a Sapucaí com o refrão “soca no pilão / preto velho mandingueiro / o negro que virou ouro / lá nas terras do Salgueiro”.

Mesmo com toda essa bagagem histórica, a canção permanece como um lado B de uma fase menos celebrada de Jorge Ben Jor e não integra o repertório tradicional de suas apresentações pela capital paulista. No palco, a prioridade continua voltada aos sucessos atemporais de álbuns históricos como “Samba esquema novo”, “A tábua de esmeralda” e “África Brasil”.

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