Os ativos financeiros do Brasil registraram tombos históricos na semana posterior à reeleição de Lula (PT) para o seu quarto mandato presidencial, acumulando as maiores perdas de todo o ano. A Bolsa de Valores, que havia alcançado a marca inédita de 200 mil pontos no mesmo mês, sofreu uma retração de 17,5% no período e fechou o mês de outubro com baixa de 9,21%.
De acordo com um levantamento realizado pela Elos Ayta com base em estatísticas da B3, o tombo semanal da Bolsa configurou o quinto maior desde a implantação do Plano Real, em julho de 1994. Trata-se da retração mais expressiva desde o intervalo concluído em 20 de março de 2020, marco inicial da pandemia de coronavírus, quando o índice despencou 18,88%.
O impacto também atingiu o valor de mercado das companhias abertas. Segundo números fornecidos pela plataforma Economatica, as empresas do país viram evaporar R$ 996,5 bilhões em valor de mercado ao longo da semana.
No mercado de câmbio, a moeda americana bateu o recorde de maior alta semanal em quase duas décadas, disparando 9,18%. O avanço não era tão expressivo em uma única semana desde outubro de 2008, época em que a divisa subiu 9,76% em sete dias em meio ao estouro da crise das hipotecas nos Estados Unidos. No recorte mensal, o dólar acumulou o maior salto de 2026 frente ao real, alcançando 5,31%.
Enquanto isso, as taxas dos juros futuros, que projetam o cenário macroeconômico para os próximos anos, sofreram forte escalada. O contrato de DI com vencimento estipulado para janeiro de 2031 saltou de 12,64% na sexta-feira anterior (23) para 15,3%, configurando um acréscimo de 2,66 pontos percentuais.
O comportamento dos ativos locais descolou do cenário internacional. O índice DXY, que mensura a força do dólar ante outras seis moedas globais, cresceu apenas 0,15% na semana. Nas bolsas estrangeiras, os principais índices americanos fecharam no vermelho: o S&P 500 diminuiu 0,57%, o índice Nasdaq cedeu 1,99% e o Dow Jones recuou 0,85%.
O impacto do circuit breaker e a reação pós-eleição Na segunda-feira (26), logo após o resultado das urnas, a Bolsa registrou um tombar histórico, encerrando o pregão em queda de 13,88% e posicionando-se aos 176.608 pontos. Foi a maior desvalorização diária desde 16 de março de 2020, período em que o mundo ainda assimilava os choques econômicos da pandemia. O tamanho da queda obrigou a B3 a acionar o circuit breaker, mecanismo regulatório criado para paralisar temporariamente as negociações e conter pânicos acentuados.
A onda vendedora também atingiu outras frentes econômicas. A moeda americana cravou a maior valorização diária desde 1999, ao passo que os juros futuros saltaram mais de 2 pontos percentuais.
Essa reviravolta abrupta desfez o otimismo acumulado nas semanas que antecederam o pleito, período em que os investidores apostavam na vitória de Flávio Bolsonaro (PL) e na implementação de um controle fiscal mais rígido. No pregão seguinte ao primeiro turno, o capital estrangeiro injetou R$ 10,6 bilhões no mercado acionário brasileiro.
O triunfo de Lula acendeu alertas entre os agentes financeiros sobre o risco de o novo governo falhar na tarefa de equilibrar as contas públicas. A perspectiva de manutenção de uma política fiscal expansionista tende a inflar o prêmio de risco exigido para financiar a dívida pública, empurrando os juros futuros para cima. Consequentemente, taxas mais caras encarecem o crédito corporativo e de consumo, comprimindo as projeções de lucro das empresas e minando a sustentação da Bolsa.
Projeções e análises do mercado Para analistas do setor financeiro, a instabilidade veio para ficar. O BTG emitiu um relatório no qual classifica o quarto mandato presidencial como desafiador, apontando a necessidade de articulações constantes com legendas do centrão para viabilizar pautas. A instituição prevê um movimento de forte baixa nas ações nas semanas seguintes ao pleito, estimando o Ibovespa na faixa dos 170 mil pontos e uma desvalorização da moeda nacional entre 10% e 15%.
A avaliação é compartilhada por Bruna Sene, analista de renda variável da Rico, que definiu o momento como um recomeço para a praça financeira brasileira.
“O mercado desfez as posições construídas nas últimas semanas e agora volta a montar seu cenário a partir das informações que virão. Os fundamentos que sustentavam o interesse pela Bolsa brasileira, como valuation descontado, peso das commodities e baixa exposição dos investidores a ações, seguem presentes. O que mudou foi o conjunto de premissas sobre a política econômica, que ainda precisa ser definido.”
Segundo Sene, os ativos locais podem voltar a se valorizar desde que haja previsibilidade fiscal. “O fator decisivo continua sendo a queda dos juros de longo prazo, e isso depende de previsibilidade fiscal, com regras claras e duradouras. Enquanto essas definições não vierem, a volatilidade deve seguir elevada”, diz.
A especialista aconselha cautela e priorização de companhias resilientes. “A recomendação é evitar decisões no calor do momento. Movimentos tão concentrados costumam ser seguidos por oscilações fortes nos dois sentidos. Seguimos priorizando diversificação.”
No câmbio, o viés para o real também é de baixa. O Morgan Stanley projeta que a alta da moeda norte-americana ocorra de forma escalonada: primeiro alcançando R$ 5,50 e, na sequência, flutuando entre R$ 5,60 e R$ 5,70, caso os investidores precifiquem um risco fiscal mais elevado. Em um cenário extremo, a cotação poderia encostar em R$ 6. Por fim, o JPMorgan estima o dólar cotado a R$ 5,50 no curto prazo, enquanto o UBS aponta R$ 5,40 como patamar inicial de referência, pontuando que, embora os juros altos ainda deem suporte ao real, o fantasma da incerteza fiscal continua ditando o ritmo da pressão sobre o câmbio.
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