O trailer da mais recente sequência da franquia de videogames Call of Duty começa mostrando jovens recrutas sul-coreanos no que parece ser uma patrulha de rotina. Logo em seguida, um ataque de mísseis da Coreia do Norte atinge o sul da península, reiniciando os combates entre os dois países, que firmaram um armistício em 1953.
O trailer de Call of Duty: Modern Warfare 4 acumulou 22 milhões de visualizações no dia do lançamento, em maio. No total, o vídeo já foi visto 61 milhões de vezes, com a estreia do título agendada para 23 de outubro. Enquanto críticos acusam a produção de transformar um conflito não resolvido em entretenimento, outros valorizam o fato de a história ser narrada a partir da perspectiva dos soldados sul-coreanos. Diante disso, surge o questionamento: a Coreia do Norte teria capacidade de executar uma ofensiva desse tipo?
O histórico do conflito na península
A divisão da península coreana ocorreu após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Cinco anos mais tarde, em 25 de junho de 1950, o Norte invadiu o Sul, dando início à Guerra da Coreia (1950-1953), um embate que ultrapassou as barreiras regionais e se transformou em uma disputa entre as superpotências da Guerra Fria (1947-1991). O bloco oriental, encabeçado pela União Soviética (1922-1991), apoiava a Coreia do Norte, ao passo que a Coreia do Sul mantinha aliança com os Estados Unidos e demais nações ocidentais.
As tropas do Norte avançaram rapidamente e tomaram a capital sul-coreana, Seul, em apenas três dias. Em poucas semanas, as forças do Sul e da ONU, lideradas pelos americanos, foram empurradas para um perímetro defensivo ao redor da cidade portuária de Busan, situada no sudeste do território.
O cenário mudou em setembro de 1950, quando o general americano Douglas MacArthur (1880-1964) comandou um desembarque surpresa em Incheon, próximo a Seul. A China ingressou no conflito no mês seguinte. Nos anos seguintes, os dois lados travaram batalhas até chegarem a um impasse sangrento e assinarem um armistício em 27 de julho de 1953.
O cessar-fogo suspendeu os combates, mas não constituiu um tratado de paz. O acordo foi firmado pela Coreia do Norte, pela China e pelo Comando da ONU, sob liderança dos Estados Unidos, enquanto a Coreia do Sul optou por não assinar. A tratativa estabeleceu uma linha de cessar-fogo próxima à linha de frente, gerando uma zona desmilitarizada com 4 km de largura que permanece até os dias atuais como uma das fronteiras mais vigiadas do planeta.
Mais de 70 anos depois, as duas nações continuam tecnicamente em guerra. Apesar de diversos confrontos terrestres e marítimos ao longo do tempo, os governos conseguiram evitar a retomada de um conflito total. Estima-se que pelo menos três milhões de pessoas perderam a vida durante os combates, o que consolidou a Guerra da Coreia como um dos episódios mais mortais da era moderna.
Mudanças políticas e probabilidade de invasão
Historicamente, após o armistício, os líderes anteriores da Coreia do Norte passaram décadas reiterando o interesse em reunificar a península de forma pacífica, mas sob suas próprias condições. A postura de Pyongyang sofreu um endurecimento em janeiro de 2024, momento em que o atual ditador, Kim Jong-un, comunicou ao Parlamento nacional que o país havia descartado a reunificação como meta nacional.
Como reflexo, a Constituição norte-coreana foi modificada para classificar a Coreia do Sul como “adversário primário e invariavelmente o principal inimigo”, determinando que os dois Estados sejam tratados como entidades separadas e hostis. Vale destacar que os Estados Unidos mantêm cerca de 28,5 mil militares em solo sul-coreano como parte do pacto de aliança com Seul.
Nas últimas décadas, autoridades e analistas militares de governos ocidentais e sul-coreanos realizaram simulações de guerra, treinamentos e avaliações de inteligência para mensurar a probabilidade e o formato de uma eventual invasão. Um relatório publicado em 2023 pela Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos apontou que a Coreia do Norte provavelmente empregaria seu arsenal de mísseis balísticos e nucleares para projetar influência regional e como instrumento de dissuasão, e não para desencadear uma ofensiva em grande escala.
Markus Garlauskas, ex-oficial de Inteligência Nacional dos Estados Unidos para a Coreia do Norte e atual pesquisador do Conselho do Atlântico em Washington, avalia que uma eventual investida de Pyongyang contra o vizinho se daria em “escala limitada”, acompanhada pelo uso de mísseis e pela ameaça de escalada atômica. Atualmente, apenas a China e a Coreia do Norte detêm armas nucleares na região do leste asiático, enquanto nove países no mundo possuem esse tipo de armamento.
Desafios militares e assimetrias
Caso a Coreia do Norte decidisse invadir o Sul, analistas apontam que a empreitada esbarraria em múltiplos obstáculos. Embora o exército norte-coreano seja numericamente superior — com estimadas 1,2 milhão de tropas frente aos 450 mil soldados de Seul —, além de contar com um volume maior de tanques, peças de artilharia e mísseis, o poderio sul-coreano apresenta vantagens expressivas.
“Eu teria cautela ao menosprezar as vantagens da Coreia do Sul no poderio aéreo”, afirma o professor Fyodor Tertitskiy, da Divisão de Estudos Internacionais da Universidade da Coreia, em Seul. O aparato militar sul-coreano figura entre os cinco mais avançados globalmente, amparado por um orçamento de defesa estimado em cerca de US$ 43 bilhões (R$ 216 bilhões), em contraste com os cerca de US$ 1,6 bilhão (R$ 8 bilhões) investidos pelo Norte. Projeções indicam que o orçamento de defesa da Coreia do Sul supera o tamanho de toda a economia norte-coreana.
Outro fator limitante para Pyongyang é a estrutura militar altamente rígida e centralizada, concebida primariamente para barrar golpes contra o líder supremo em vez de priorizar a eficiência operacional. Tertitskiy aponta que diversas deliberações táticas do Exército Popular Coreano dependem do aval de instâncias políticas ou de segurança, o que restringe a autonomia dos comandantes e a agilidade exigida em um cenário bélico moderno.
O envelhecimento do material bélico norte-coreano também pesa na balança. Estimativas da Coreia do Sul em 2018 apontavam que o Norte dispunha de aproximadamente 810 aeronaves de combate, boa parte remanescente da era soviética, incluindo caças MiG-29 adquiridos décadas atrás. Por outro lado, analistas ponderam que a Coreia do Norte pode ter absorvido aprendizados operacionais práticos através do envio de tropas para atuar ao lado de forças russas no conflito na Ucrânia. Cerca de 16 mil soldados norte-coreanos teriam participado das frentes ucranianas, registrando baixas fatais e feridos, mas os sobreviventes retornam com bagagem sobre o emprego de drones e táticas de guerra contemporânea.
Vulnerabilidades geográficas e demográficas do Sul
Apesar da superioridade tecnológica, a geografia sul-coreana impõe vulnerabilidades estratégicas. A capital Seul localiza-se a apenas 38 a 50 quilômetros ao sul da zona desmilitarizada, e sua região metropolitana — que abrange Incheon e a província de Gyeonggi — concentra mais de metade da população nacional.
A proximidade com a fronteira, somada ao potencial de artilharia, foguetes, mísseis e drones do Norte, torna Seul “vulnerável e muito difícil de ser evacuada”, pontua Tertitskiy. Adicionalmente, a Coreia do Sul enfrenta desafios demográficos de longo prazo devido a uma das taxas de natalidade mais baixas do planeta, o que encolhe a base de cidadãos aptos ao alistamento obrigatório. Dados do Ministério da Defesa sul-coreano mostram que o efetivo de militares na ativa recuou de cerca de 563 mil em 2019 para aproximadamente 450 mil em 2025.
Consequências de um conflito em grande escala
Especialistas calculam que a probabilidade de um confronto de proporções massivas entre as duas Coreias é reduzida, mas advertem para as proporções catastróficas caso isso ocorra. Bruce Klingner, ex-analista da CIA e da Agência de Inteligência de Defesa e atual pesquisador da Fundação Maureen e Mike Mansfield em Washington, aponta que uma agressão norte-coreana provocaria uma “reação militar transnacional” com o envolvimento de tropas americanas, o que poderia atrair a China e a Rússia por força de tratados militares firmados com Pyongyang.
No mesmo sentido, Fyodor Tertitskiy adverte que um confronto na península coreana carregaria “uma possibilidade real não só de guerra nuclear, mas também termonuclear”. As armas termonucleares, referidas como bombas de hidrogênio, combinam processos de fissão e fusão nuclear, ostentando um potencial destrutivo significativamente superior ao dos artefatos lançados sobre o Japão em 1945.
Mesmo sem o uso de ogivas atômicas, a destruição decorrente de uma invasão seria severa. “A Coreia do Norte detém artilharia em massa destacada perto da zona desmilitarizada, que poderia ser disparada contra Seul sem se movimentar”, relata Klingner, acrescentando que “Pyongyang também conta com centenas de milhares de mísseis e alguns deles podem se esquivar das defesas antimísseis aliadas.”
Apesar das críticas direcionadas ao enredo de Modern Warfare 4, Tertitskiy, que reside em Seul e, na condição de cidadão naturalizado, seria mobilizado para o serviço militar em caso de guerra, adota uma perspectiva pragmática: “Seja ele incorreto ou não, o jogo fará muitas pessoas pensarem na nossa península.”
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