Celebração de Lula em carro chinês é novo retrato da indústria automotiva nacional

Carro chinês usado por Lula na Avenida Paulista marca nova fase da indústria

Mercados

Poucas horas após o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) confirmar a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), um GWM Haval H6 preto, ano 2025, seguiu rumo à avenida Paulista, em São Paulo. De pé no veículo, empunhando um megafone e com parte do corpo para fora do teto solar, o presidente criou um retrato da nova indústria automotiva nacional.

O veículo em questão é de origem chinesa e chegou ao Brasil meses antes do início da montagem em Iracemápolis (interior de São Paulo). A linha de produção atual ocupa o espaço que já pertenceu à alemã Mercedes-Benz. O modelo escolhido para o passeio da vitória também poderia ser o igualmente chinês BYD Tan que foi cedido ao Planalto em 2024.

Tradições históricas e a chegada dos eletrificados

Até o início desta década, os carros utilizados pelas autoridades de Brasília eram de marcas presentes no país desde os primeiros anos do século 20. Com a criação do Geia (Grupo Executivo da Indústria Automobilística) no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960), houve um incentivo natural à utilização de carros nacionais.

No dia 18 de novembro de 1959, JK desfilou em um Fusca conversível pelos corredores da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo (ABC). O passeio fez parte da cerimônia de inauguração daquela planta que, por décadas, foi o maior símbolo da indústria automotiva nacional.

Lula também percorreu a mesma planta a bordo de um VW em diferentes momentos. A última vez foi em fevereiro de 2024, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin. Na época, o governo havia anunciado o programa Nova Indústria Brasil, que gerou uma série de anúncios de investimentos por parte das montadoras.

Expansão das marcas chinesas no país

Mas então vieram as chinesas com seus carros eletrificados. O que no começo se limitou a anúncios de produção nacional em meio a importações tímidas logo ganhou volume. Em 2024, a BYD trouxe 76,7 mil veículos para o Brasil. Neste ano, entre janeiro e setembro, a empresa chinesa já emplacou 169,1 mil unidades no país.

A marca pretende dobrar a capacidade de produção da fábrica de Camaçari (BA), chegando a 600 mil carros montados por ano. O índice de nacionalização de seus produtos dará um salto em 2027, quando as operações de soldagem, estamparia e pintura serão localizadas. O plano inclui mais contratações.

Com uma segunda fábrica confirmada para a cidade de Aracruz (ES), a GWM segue com seu plano de investimentos até 2032, que chegará a R$ 10 bilhões em aportes.

Segurança e novos cenários institucionais

Lula sempre utilizou modelos importados, embora trazidos por empresas com fábricas no Brasil e associadas à Anfavea (entidade que reúne montadoras instaladas no Brasil). Em seus dois primeiros mandatos (2003 a 2010), chegou a compromissos oficiais em modelos como o Chevrolet Omega feito na Austrália e o mexicano Ford Fusion.

Com os chineses, essa tradição está sendo modificada. Embora os veículos cedidos à Presidência da República sejam de marcas que já têm fábricas no país, GWM e BYD não fazem parte da associação das montadoras.

Cabe ao GSI (Gabinete de Segurança Institucional) escolher ou aprovar os carros que transportam o chefe do Executivo. Os deslocamentos são feitos em comboios, e não raro modelos de outra marca chinesa, a Chery, aparecem na comitiva.

Não será surpresa se, ao longo de seu quarto mandato, Lula for visto a bordo de outros veículos dessas e de outras montadoras vindas da China com planos de produzir no Brasil. Serão múltiplos os retratos dessa nova fase da indústria automotiva.

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