A temporada anual de gripe teve um início atipicamente precoce nos Estados Unidos em 2026, acendendo um sinal de alerta entre autoridades sanitárias e especialistas em infectologia. Dados do relatório FluView, divulgado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) em 9 de outubro, apontam que o índice de testes positivos para influenza em escala nacional atingiu 3,6%. O patamar representa um aumento de seis vezes em relação ao mesmo período de 2025, quando o percentual registrado foi de 0,6%.
Historicamente, o ciclo do vírus ganha força ao longo do outono e alcança o ápice entre os meses de dezembro e fevereiro. No entanto, indicadores de vigilância já demonstram uma escalada rápida da doença desde o começo de setembro.
Disparidades regionais e aceleração dos casos
Em algumas partes do território norte-americano, os números são ainda mais expressivos. Na Região 9 definida pelo CDC — que engloba Califórnia, Nevada, Arizona e Havaí —, a taxa de positividade alcançou 9,5%, índice considerado excepcionalmente alto para esta época do ano.
Para Andrew Pekosz, imunologista da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, o comportamento da curva epidemiológica chama a atenção. “Não é inédito ver as coisas aumentando nesta fase”, avalia o especialista. “Mas também é algo que provavelmente não deveríamos ver até novembro ou dezembro, no mínimo.”
Predomínio absoluto da cepa H1N1
A gripe sazonal pode ser desencadeada por diferentes cepas dos vírus influenza A e B, gerando comumente uma circulação mista. Neste ano, contudo, o subtipo H1N1 tem dominado amplamente os registros nas regiões com maiores índices de infecção. A testagem semanal mais recente do CDC revelou que 98,4% das amostras positivas correspondiam ao H1N1, restando apenas 1,6% para o subtipo H3N2.
A identificação do subtipo viral dominante é fundamental para prever quais faixas etárias sofrerão o maior impacto do contágio. Enquanto surtos com prevalência de H3N2 costumam provocar quadros mais severos em idosos, anos dominados pelo H1N1 historicamente afetam com maior intensidade o público jovem — embora ambos possam levar a complicações sérias em qualquer idade.
Segundo Pekosz, mutações podem estar por trás desse avanço antecipado. “A versão [do H1N1] que está circulando parece ser um pouco diferente da cepa da vacina que temos e das cepas de H1N1 que circularam antes. É o que chamamos de deriva antigênica”, explica. Essa capacidade de driblar a imunidade prévia facilita a transmissão do patógeno, ainda que seja cedo para avaliar os reflexos diretos na efetividade dos imunizantes deste ano.
Qual é o momento ideal para a vacinação?
Especialistas ressaltam que a imunização precoce continua sendo a estratégia mais eficiente de contenção. A professora de medicina interna e infectologista do UT Southwestern Medical Center, Trish Perl, defende que a proteção deve ser buscada imediatamente. A médica costuma recomendar a aplicação antes do feriado de Ação de Graças, período após o qual as pessoas tendem a adiar a ida aos postos.
“A imunidade da vacina contra a gripe é mais forte por cerca de quatro a seis meses, e normalmente esperamos que a gripe atinja o pico em dezembro ou janeiro”, pontua Pekosz. “Portanto, a vacinação em setembro ou outubro ajudará você a passar pela pior parte da temporada de gripe.” O pesquisador complementa: “O melhor momento para se vacinar é antes de você ver a gripe em sua região.”
Chegada das vacinas de RNA mensageiro
No horizonte da prevenção, o ano de 2026 também marcou a aprovação da mFLUSIVA, da farmacêutica Moderna, pela Food and Drug Administration (FDA) em 5 de agosto. Trata-se do primeiro imunizante sazonal contra a gripe desenvolvido com a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), liberado para adultos a partir dos 50 anos. Nos ensaios clínicos de fase 3, o produto demonstrou ser 26,6% mais eficaz na prevenção da infecção do que as doses convencionais.
Apesar da autorização da agência reguladora, a incorporação nas recomendações oficiais do Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização (ACIP) enfrentou entraves burocráticos decorrentes de mudanças na administração Trump. Com isso, embora a fabricante previsse a distribuição da vacina em redes selecionadas para o ciclo 2026–2027, o acesso à tecnologia ainda é restrito.
Para aqueles elegíveis que conseguirem encontrá-la, a recomendação médica é favorável. “Os dados sugerem que, se você puder tomar a vacina de mRNA, provavelmente terá uma resposta mais forte à maioria dos componentes da vacina do que se tomasse a padrão. Mas, novamente, a padrão também é muito boa”, destaca Pekosz.
Além de uma resposta imune potencialmente superior, as vacinas de mRNA oferecem rapidez de produção, permitindo que os cientistas selecionem as cepas-alvo mais tarde no ano, resultando em formulações mais precisas. Por fim, caso a infecção ocorra, Perl lembra que o uso de antivirais como o Tamiflu continua relevante, auxiliando na redução da gravidade e do tempo de transmissão do vírus.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
