Fim da 6x1 pode acirrar negociações coletivas e limitar reajuste e condições de plano de saúde empresarial

Fim da escala 6×1 vai endurecer negociações trabalhistas e ameaça benefícios

Mercados

O fim da escala 6×1 tem potencial para impactar as negociações coletivas entre empregadores e trabalhadores no próximo ano, gerando maior resistência patronal a reajustes salariais acima da inflação e à manutenção de benefícios, a exemplo do plano de saúde empresarial, que já pesa no caixa corporativo.

Com a implementação da escala 5×2 — contemplando dois dias de descanso semanal remunerado — a partir de 16 de dezembro, e o corte da jornada de 44 horas semanais para 42 horas, os empresários tendem a buscar alternativas para neutralizar eventuais acréscimos nos custos operacionais. Em contrapartida, os sindicatos precisarão atuar para preservar direitos fundamentais.

Pressão sobre os planos de saúde

O plano de saúde surge como um dos benefícios mais vulneráveis diante dessa transição. A alteração na carga horária acontece em um momento de forte pressão sobre as despesas com assistência médica, cuja tendência aponta para altas ainda maiores em 2027. De acordo com projeção da Marsh Health and Benefits Brasil, os convênios médicos corporativos devem sofrer reajustes situados entre 9% e 11% no próximo ano.

Para Antonio Galvão Peres, advogado e doutor em direito do trabalho pela USP (Universidade de São Paulo), a junção de despesas mais elevadas com a obrigatoriedade de ajustar as jornadas forçará as companhias a buscarem enxugamento interno, o que abrange a revisão de vantagens oferecidas.

O especialista ressalta que as negociações coletivas são efêmeras e contam com prazos de vigência limitados. Além disso, a reforma trabalhista de 2017 extinguiu a ultratividade. Isso significa que, ao término de um acordo ou convenção, caso não exista um novo acerto válido, os funcionários perdem os benefícios — entendimento este respaldado pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

“Todos os benefícios de acordos e convenções são efêmeros, quando chega o fim da vigência, uma norma tem que ser negociada, porque perde a validade. Isso vale para o bem e para o mal”, diz.

Peres observa que, em cenários de forte atividade econômica, as entidades sindicais costumam buscar novas conquistas. Por outro lado, em fases de aperto financeiro, os empregadores tendem a rever regalias anteriores. “Se estou num momento de repassar custos, a empresa também tem a vantagem de não oferecer o que já oferecia antes”, afirma Peres.

Visão sindical e impactos setoriais

Do ponto de vista do sociólogo Clemente Ganz Lúcio, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais e ex-diretor técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estudos Econômicos), a manutenção ou supressão de benefícios dependerá da dinâmica de cada setor e da capacidade de articulação de cada sindicato.

No tocante aos convênios médicos, Lúcio avalia que alguns empresários tentarão embutir no contexto do fim da escala 6×1 um encargo que já onera os negócios, transferindo a culpa ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apoiador da iniciativa. “O pós-eleições mostrou que há empresários que estão fazendo ‘horrores’, e vão querer usar isso, o que não está necessariamente associado a um problema econômico.”

Para o sociólogo, as entidades laborais precisam agir com firmeza na recepção e condução dos impasses. “Cada processo de negociação reflete o ambiente da empresa ou do setor”, pontua.

Lúcio reforça que o custo da assistência médica já figurava nas pautas de discussão e deve voltar a ser instrumentalizado pelos patrões para restringir regalias, embora reforce que o debate antecede o fim da escala 6×1 e exige “resistência” dos trabalhadores. As centrais sindicais vêm articulando plenárias para orientar os sindicatos locais a mapear a realidade das companhias e buscar saídas rápidas.

Endurecimento nas mesas de negociação

Hélio Zylberstajn, professor sênior da USP e economista encarregado do Salariômetro da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), corrobora que o fim da escala 6×1 tornará as negociações salariais mais duras e restringirá benefícios, sobretudo em ramos de atividade cujas operações não podem parar em feriados e finais de semana.

Um levantamento conduzido por ele em 37 mil negociações realizadas entre julho de 2024 e julho de 2025 revelou que 81% delas continham cláusulas sobre jornada de trabalho, registrando uma média de cinco por documento, o que ilustra o alcance das modificações.

“É exatamente isso que você está desconfiando, as empresas vão ser muito mais duras nas concessões de reajustes e de benefícios, porque vão ter de reduzir o custo de trabalho”, afirma.

O acadêmico aponta que os índices do Salariômetro referentes a setembro e outubro já demonstram desaceleração nas tratativas com ganhos reais, espelhando o esfriamento econômico no mercado de trabalho. Esse panorama, segundo ele, tende a se agravar antes mesmo dos reflexos integrais da mudança na jornada, impulsionado por uma tendência inflacionária ligeiramente superior para o próximo exercício.

Como alternativa, Zylberstajn sugere que organizações e sindicatos firmem compromissos voltados ao aumento de produtividade como moeda de troca para preservar benefícios, amortizar reajustes ou mitigar cortes.

Cenário recente do Dieese

Paralelamente, os dados mais recentes do Dieese apontam que as negociações salarial de 2026 registram desempenho positivo para a base trabalhadora em comparação a 2025, beneficiadas pelo ambiente macroeconômico favorável até o momento. Até o mês de setembro, cerca de 86% das correções superaram a inflação calculada pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), enquanto apenas 3% fecharam com perdas reais.

A média salarial apresentou correção de 1,08% acima da inflação do período. Os segmentos de comércio, indústria e serviços obtiveram ganhos reais em aproximadamente 87% das tratativas, ao passo que o setor rural registrou avanço em 72% dos casos.

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