Fonoaudiologia estreia no RUF após salto de 72% no número de ingressantes

Fonoaudiologia estreia no RUF após alta de 72% de ingressantes

Educação

Com um salto expressivo de 72% no volume de ingressantes entre os anos de 2015 e 2024, a graduação em fonoaudiologia estreou no RUF (Ranking Universitário Folha). Os dados oficiais do Censo da Educação Superior do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) apontam que a quantidade de novos alunos saltou de 3.814 para 6.550, posicionando a carreira na 35ª colocação entre os cursos com mais matrículas no Brasil.

Criado em 1958, o pioneiro curso da USP (Universidade Se Paulo) ocupa a liderança geral da área na avaliação, enquanto a PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) aparece como a instituição privada mais bem colocada, na sexta posição.

Ampliação de horizontes e impacto da pandemia

A diversidade de atuações na profissão surpreende estudantes como Júlia Machado, de 23 anos, aluna do quinto ano na USP. Na graduação, ela percebeu que a área vai muito além da fala e da voz. “A gente até hoje descobre coisas. Existe fono forense, fonoestética, fono de tudo. São muitas especialidades”, diz. O leque abrange audiologia, linguagem, atuação hospitalar, fonoaudiologia educacional, reabilitação neurológica, deglutição, desenvolvimento infantil, envelhecimento e saúde coletiva.

De acordo com Daniela Molini Avejonas, chefe da Fofito (Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da USP), a pandemia de Covid-19 elevou a visibilidade da carreira. Em UTIs, esses profissionais passaram a atuar ativamente no atendimento de pacientes pós-intubação, lidando com riscos de broncoaspiração, dificuldades de deglutição e alterações cognitivas, respiratórias e de comunicação.

Além disso, sequelas invisíveis da infecção também chamaram atenção. Em tese de doutorado na Unesp (Universidade Estadual Paulista), Simone Sperança investigou os reflexos do SARS-CoV-2 no processamento cerebral dos sons. Embora os exames tradicionais não apontassem perdas auditivas em 31 voluntários avaliados, 96,8% deles apresentaram algum tipo de alteração em habilidades do processamento auditivo central, função vital para separar vozes de ruídos e ordenar estímulos sonoros.

Sperança explica que a pessoa pode escutar normalmente, mas ter dificuldade para compreender uma conversa em ambiente barulhento. A avaliação e a reabilitação desses casos fazem parte da atuação do fonoaudiólogo.

Fatores de crescimento e avanço na rede privada

O avanço no número de novos alunos, contudo, não se restringe aos reflexos sanitários da crise global. Carla Gentile Matas, coordenadora da graduação na USP, destaca que o envelhecimento populacional, a maior sobrevida de recém-nascidos de alto risco, a ampliação do acesso ao ensino superior e o aumento na oferta de vagas impulsionaram esse cenário.

O crescimento ocorreu de forma intensa na rede privada, onde o contingente de ingressantes subiu 94,7% de 2015 a 2024, passando de 2.790 para 5.433 matrículas. Nas instituições públicas, a alta foi de 9,1%, com variação de 1.024 para 1.117 novos estudantes.

Na Unicid (Universidade Cidade de São Paulo), que registrou 329 ingressantes presenciais em 2024, a oferta de turnos flexíveis — com turmas pela manhã e à noite — facilita a conciliação entre estudo e trabalho, segundo Simone Sperança, que também coordena o curso na instituição.

Demandas na infância e expansão no SUS

A busca por terapia voltada ao desenvolvimento infantil e à comunicação também impulsionou a carreira. Em casos de TEA (transtorno do espectro autista), os especialistas atuam em frentes de linguagem, comunicação, mastigação, alimentação e deglutição. O Censo 2022 mapeou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no país (1,2% da população), proporção que chega a 2,6% entre crianças de 5 a 9 anos, conforme o IBGE.

Para Daniela Avejonas, o salto nos diagnósticos reflete maior conscientização e critérios clínicos mais claros, e não um aumento proporcional na incidência de casos. Jacy Perissinoto, coordenadora do NIFLINC (Núcleo de Investigação Fonoaudiológica em Linguagem da Criança e do Adolescente) da Unifesp, corrobora que a idade de avaliação diminuiu drasticamente: há cerca de 15 anos, as crianças chegavam aos sete ou oito anos; hoje, passam pela triagem por volta dos dois anos e meio, além de adolescentes e adultos de 30 e 40 anos sem diagnóstico prévio. A profissional aponta que a diversificação engloba dislexia, TDAH e outras dificuldades de aprendizagem.

O mercado de trabalho acompanhou essa guinada. Carla Salles Chamouton, presidente da Comissão de Ensino da SBFa (Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia) e docente da Unesp de Marília, aponta que o total de profissionais vinculados ao SUS (Sistema Único de Saúde) saltou de 8.603 em 2008 para 24.090 em 2024. Nacionalmente, o CFFa (Conselho Federal de Fonoaudiologia) aponta que o número de registros pulou de 48.391 em junho de 2021 para 61.054 em agosto de 2026, uma alta de 26,2% em pouco mais de cinco anos.

Para o futuro, Sperança avalia que a profissão continua em expansão por ser uma área jovem repleta de nichos a serem explorados, desde que os especialistas apostem na formação continuada e na atualização constante.

What do you feel about this post?

0%
like

Like

0%
love

Love

0%
happy

Happy

0%
haha

Haha

0%
sad

Sad

0%
angry

Angry

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *