Países com sistemas de pagamentos interligados registram, em média, 4% a mais de comércio bilateral, aponta estudo recente publicado pelo Banco Central Europeu. O levantamento ganhou destaque após a instituição aprovar o início de uma avaliação sobre a viabilidade de interligar o Pix brasileiro ao Tips, a plataforma europeia de liquidação de pagamentos instantâneos.
As negociações para o acordo estão sendo conduzidas em conjunto com o Banco Central do Brasil, órgão que administra o Pix. A iniciativa busca eliminar intermediários bancários, baratear custos e dar mais velocidade às operações internacionais.
Benefícios da conexão global Intitulada “Conectando sistemas de pagamento, interligando economias”, a pesquisa do BCE conclui que nações com infraestruturas integradas comercializam mais entre si. Os ganhos comerciais são expressivos em regiões que enfrentam altas taxas em transferências internacionais e em plataformas voltadas para transações no atacado.
Embora o índice de 4% não seja uma previsão fechada para o comércio entre Brasil e Europa, ele sinaliza as vantagens futuras para as empresas de ambos os territórios. Atualmente, governos ao redor do mundo buscam unir suas redes domésticas de pagamento instantâneo — como o Pix no Brasil, o Tips na Europa e a UPI na Índia — para garantir maior transparência financeira.
O desafio da arquitetura financeira Bilhões de transações cruzam fronteiras diariamente, mas essa engrenagem do comércio internacional ainda sofre com lentidão, fragmentação e custos elevados, alertam os economistas Massimo Minesse, Laura Lebastard e Olga Triay Bagur, autores do documento.
Enviar remessas da Europa para a África Subsaariana, por exemplo, custa em média mais de 8% do valor total transferido. Enquanto isso, companhias nos Balcãs Ocidentais enfrentam taxas dez vezes maiores do que as aplicadas dentro da Área Única de Pagamentos em Euros, e transferências na África podem levar dias devido à quantidade de intermediários.
“Essas fricções refletem a arquitetura do sistema global de pagamentos”, diz o estudo. A maior parte do fluxo financeiro global passa por grandes instituições que atuam por meio de bancos locais, gerando novas taxas e atrasos a cada etapa.
Cenário e próximos passos Os pesquisadores destacam que a rede mundial de pagamentos rápidos está dividida em blocos regionais isolados, cada um ancorado em uma plataforma nacional de sucesso — a exemplo do Pix brasileiro e da UPI indiana. Em contrapartida, a América do Norte segue desconectada, dependendo do modelo tradicional de bancos correspondentes.
“A conectividade de pagamentos, portanto, produz um efeito cerca de metade do de um acordo comercial e um quarto do de uma união monetária, um resultado notável para o que é essencialmente uma melhoria na infraestrutura técnica”, estima o estudo.
Ainda não existe data oficial para a conclusão do acordo entre o Banco Central brasileiro e o BCE. Após a fase de análises, caberá ao Conselho de Governo do Banco Central Europeu dar sinal verde para o avanço do projeto, cujo cenário pode ser favorecido pelo pacto comercial entre Mercosul e União Europeia.
Internamente, nove áreas do Banco Central do Brasil já foram mobilizadas para estruturar a governança e verificar a compatibilidade técnica com o sistema europeu. Caso o cronograma flua conforme o planejado, a projeção dos técnicos é colocar um projeto piloto em funcionamento em junho de 2028, dependendo de ajustes regulatórios e coordenação de mercado.
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