A literatura brasileira contemporânea tem ganhado novos contornos com o aumento da diversidade, permitindo que experiências sociais historicamente marginalizadas encontrem representatividade nas páginas dos livros. Durante uma live na pandemia, a escritora Jarid Arraes pontuou com precisão a relevância desse movimento ao declarar: “A gente se enxerga como possíveis protagonistas […], como transformador, como herói, como agente de uma história que é digna de ser contada”.
Esse reflexo literário vai além da simples identificação. Para leitores de vivências excluídas, a literatura oferece a chance de reelaboração pessoal, mostrando que suas trajetórias merecem espaço na arte. Esse espelho ganha mais amplitude com o lançamento de A fortaleza dos Homens-Borracha, romance de estreia de Ricardo Terto. Na trama, uma cozinheira, um faz-tudo, uma faxineira e um motorista de aplicativo unem forças em um plano desesperado contra os símbolos da necropolítica, movidos por uma revolta em comum.
Uma leitura particular do enredo revela uma profunda história sobre o luto. Diferente da perda natural ou por doença, o livro aborda a dor gerada pela desumanização sistemática promovida no país contra parcelas específicas da população. Nestes casos, além de processar o falecimento de um ente querido, os familiares enfrentam a ausência quase total de justiça, elevando o desamparo a um nível extremo.
Retratos da sociedade brasileira
Com esse cenário, Terto debate temas atuais como precarização do trabalho, tensões de classe, raça, gênero e a influência das redes sociais. Situações cotidianas aparecem em cenas marcantes, como a do motorista de aplicativo que precisa lidar com influenciadoras fazendo uma live em seu carro, ou o professor que descobre que a faxineira contratada por aplicativo é sua aluna na universidade.
Embora seja seu primeiro romance, Terto já havia se destacado em livros de contos e crônicas, a exemplo de Marmitas frias e requentadas (Fósforo, 2015). Seu estilo é marcado por ironia fina, que estimula a indignação diante dos absurdos naturalizados, e por uma leve melancolia, evidenciando a solidariedade do narrador com os dramas dos personagens.
O não dito
Outro ponto forte da obra é a estrutura fragmentada, que exige maior participação de quem lê. Cabe ao público conectar as pontes lógicas e emocionais, transformando-se em um “leitor-cúmplice”, conforme a definição de Cortázar. O uso de espaços em branco valoriza o silêncio, tratado pelo narrador como um tema estrutural.
O resultado é um mosaico de sentidos que une partes concretas e silêncios abstratos. Desse modo, o público acompanha a luta e o luto dos protagonistas por meio de um trágico caleidoscópio construído pela escrita de Ricardo Terto.
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