O portal Metrópoles, pertencente ao ex-senador Luiz Estevão — condenado a 31 anos de prisão por desvio de verbas públicas e posteriormente indultado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro —, divulgou uma reportagem falsa como forma de retaliação a uma denúncia revelada pelo UOL e replicada pela Folha na última quinta-feira.
A matéria intitulada “Daniel Vorcaro editava textos do site Metrópoles antes de irem ao ar” apontou que ao menos 14 conteúdos foram encaminhados antecipadamente ao ex-banqueiro, com 11 deles modificados. Em contrapartida, a CEO da empresa, Lilian Tahan, negou qualquer correlação entre um contrato publicitário de R$ 20 milhões e a linha de cobertura direcionada ao banco.
Conforme questionamentos encaminhados na tarde de sexta-feira ao diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, a ofensiva do portal busca alegar que uma apuração veiculada pelo jornal em agosto de 2024 teria sofrido abrandamento e adiamento após uma visita do executivo à sede da redação.
O material original, assinado pelas jornalistas Júlia Moura e Joana Cunha com o título “Novato na Faria Lima, banqueiro de 40 anos chama atenção por aquisições em série e festa com Alok”, detalhava a escalada financeira do grupo e levantava dúvidas sobre solvência, investigações em curso, riscos previdenciários, emissão de CDBs e conexões com figuras públicas. Foi um dos primeiros registros na grande imprensa a ecoar incertezas do mercado financeiro a respeito de Vorcaro e sua instituição.
Durante o processo de apuração, o então assessor de imprensa do investigado, Guilherme Barros, solicitou uma audiência no periódico com a promessa de que o ex-banqueiro apresentaria sua versão diretamente às repórteres “on the records”. O encontro foi aceito, a perspectiva do executivo integrou o texto final, e a matéria foi veiculada logo após a conclusão da checagem. No desfecho, Barros pediu que o compromisso não fosse registrado no Painel da Folha — praxe que costuma ser atendida pelo veículo, o que de fato ocorreu.
Diálogos vazados recentemente indicam que Vorcaro teria oferecido R$ 1 milhão a Barros caso ele conseguisse retardar ou bloquear a publicação. O plano não se concretizou, mas, segundo os registros, o assessor acabou recompensado por alegar falsamente que o texto final havia sido suavizado — argumento refutado pela redação, que manteve apenas a versão apurada.
Mais tarde, no ano subsequente, o conteúdo passou por atualizações para incorporar a prisão do empresário e a liquidação da instituição financeira, concretizadas entre o final da noite de 17 de novembro e o alvorecer de 18 de novembro de 2025.
Perguntas e respostas oficiais
Nas demandas enviadas pelo Metrópoles para embasar a reportagem de retaliação, foram levantados questionamentos respondidos formalmente pela direção da Folha. Veja a seguir as perguntas e respostas na íntegra:
1. Na conversa, Guilherme Barros diz explicitamente que Sérgio Dávila segurou a publicação da reportagem “Novato na Faria Lima, banqueiro de 40 anos chama a atenção para aquisição em séries e festa com Alok” e o fez atendendo a um pedido de Vorcaro, repassado pelo gestor de crise. A Folha gostaria de comentar? A reportagem não foi segurada, porque nem estava pronta. O pedido de Vorcaro foi de prazo para ser ouvido, o que foi concedido.
2. No dia seguinte ao adiamento da matéria, Sérgio Dávila pediu para “tomar um café” com Daniel Vorcaro, na sede da Folha. Dávila confirma que partiu dele o pedido para o encontro? Por que razão a reunião não foi registrada na coluna Painel, como é praxe no jornal? O pedido de café foi de Guilherme Barros, com o objetivo de o ex-banqueiro dar o seu lado para a reportagem, assim como o pedido para que a visita não fosse registrada no Painel. Ele foi atendido em ambas as demandas.
3. Guilherme Barros recebeu de Vorcaro R$ 1 milhão para segurar e, depois, “amenizar” o texto da reportagem publicada pela Folha. As edições da reportagem publicadas no impresso e na versão digital demonstram que os anseios de Vorcaro foram atendidos. Mais de um ano depois, o texto publicado no digital foi editado, e trechos favoráveis ao banqueiro foram suprimidos sem que o leitor fosse informado da decisão do jornal. O que a Folha diz sobre isso? Os anseios de Vorcaro não foram atendidos, a reportagem não foi segurada, saiu no prazo programado, e não foi amenizada, saiu em sua versão original. As alterações posteriores foram para incluir a prisão do ex-banqueiro, ocorrida no ano seguinte. O leitor sempre é informado de alterações feitas, por meio de aviso publicado abaixo da data original.
4. Sérgio Dávila tinha conhecimento que Guilherme Barros recebeu R$ 1 milhão de Daniel Vorcaro para interferir na dinâmica e no conteúdo da reportagem em questão? Não, apenas depois de ler as mensagens vazadas nos últimos dias.
5. A Folha recebeu algum patrocínio ou verba de publicidade de alguma empresa ou negócio vinculado a Daniel Vorcaro? Sim, ao longo de cinco anos a Folha recebeu um total de R$ 516.441,60 em anúncios veiculados no jornal, ou cerca de 2,58% do total de R$ 20 milhões recebidos em apenas um dos pagamentos feitos por Vorcaro ao Metrópoles.
Histórico de reações e pagamentos suspeitos
Em relação aos aportes financeiros, o departamento comercial do jornal — que opera de forma independente da direção de Redação — informou que, entre 2021 e 2025, o montante arrecadado em anúncios do Banco Master somou R$ 516.441,60. O valor representa apenas 2,58% dos R$ 20 milhões repassados pelo banqueiro em uma única transação ao Metrópoles.
A estratégia de pressão do portal não é inédita. Em abril, O Estado de S. Paulo apurou que o Master repassou R$ 27,28 milhões ao Metrópoles, valores que posteriormente foram redirecionados a empresas ligadas aos familiares de Luiz Estevão em movimentações apontadas como atípicas pelo Coaf, gerando respostas em tom de revanche por parte do site.
Já em 1º de julho, o Itaú inaugurou o portal Factópoles para contestar 42 reportagens e 50 postagens veiculadas pelo Metrópoles ao longo de 70 dias, apontando graves distorções informativas. A ofensiva coincidiu com apurações em andamento na revista piauí acerca do modelo de operação do portal e de seu proprietário — veículo fundado por João Moreira Salles, integrante da família acionista do banco.
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