Mortes: Desenhava o passado em mapas e fundou o ensino médio na Escola Vera Cruz

Professora que mapeou a história e fundou ensino médio morre aos 61

Brasil

Quando a transição do feudalismo para o capitalismo virava assunto nas conversas de casa, Ana Maria de Aguiar Bergamin recorria a um mapa aberto sobre a mesa. Diante das filhas, a professora de história desenhava no papel as rotas marítimas, os bloqueios no mundo árabe e o caminho das correntes dos oceanos. Ao conectar os fatos às imagens dos trajetos, ela tornava mais simples entender a formação do mundo moderno.

A prática de usar recursos visuais para repassar o conhecimento acompanhou toda a sua trajetória em sala de aula. Formada em história pela USP (Universidade de São Paulo), Ana fez da docência e do ensino a sua atividade principal. “Ela amava dar aula. Sempre foi a paixão dela”, afirma a livreira Manuela Bergamin Neves, 29. Ela conta que também cursou história influenciada pela mãe.

Nascida em São Paulo (1965 – 2026), Ana passou os primeiros anos de vida no bairro de Boaçava, na zona oeste, em uma época em que as ruas da região ainda passavam por asfaltamento e urbanização. Na infância e na adolescência, costumava viajar durante as férias escolares para Piracicaba, no interior paulista, onde se reunia com avós, tios e uma numerosa turma de primos.

Trajetória no colégio Vera Cruz

Sua relação com a Escola Vera Cruz começou ainda como aluna do maternal e seguiu ao longo do ensino fundamental. Anos mais tarde, retornou à instituição como auxiliar de classe e integrou a equipe responsável por implementar o ensino médio no colégio, atuando na primeira turma de professores.

O trabalho diário na escola levou a encontros que se estenderam para além do período escolar. Manuela recorda o convívio com os estudantes. “Como professora, ela foi muito marcante. Lembro de quando ela me levava à escola e os alunos me rodeavam para falar o quanto a amavam.”

A paixão por explicar os grandes processos históricos ganhava ainda mais força em temas específicos. Ao tratar da transição do feudalismo para o capitalismo, Ana costumava levar para a sala de aula uma passagem do “Manifesto Comunista” para ilustrar a formação do sistema capitalista. Em 2013, assumiu o cargo de coordenadora do ensino médio, função em que permaneceu por mais de dez anos, até se aposentar para cuidar da saúde. Anos depois da época escolar, ex-alunos que a encontravam na rua frequentemente abordavam a família para relatar o impacto de suas aulas.

Legado e despedida

Ana preservou grupos de convivência formados em diferentes épocas, como as colegas da faculdade de história e os professores com quem trabalhou no colégio. Na vida familiar, manteve o diálogo constante com as três filhas e a proximidade com o ex-marido, Paulo. No último mês, passou a conviver também com a cachorrinha Cuca, adotada pela família, que virou a paixão de sua vida.

Ana morreu em 16 de outubro, um dia após o Dia dos Professores, em decorrência de um câncer. Deixa as filhas Manuela, Carolina e Isabel, o ex-marido, Paulo, a cachorrinha Cuca e gerações de estudantes.

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