No Amazonas, ensaio geral para um futuro em chamas

Fumaça no Amazonas expõe disputa política e avanço do fogo

Saúde

A densa cortina de fumaça que encobre Manaus reflete uma combinação de fatores climáticos extremos e disputas de poder. Para compreender o cenário, elementos centrais precisam ser destacados: a vegetação tropical não se incendeia de maneira espontânea nem em períodos de El Niño, o atual governo federal estabeleceu marcas recordes de queda na devastação e, no cenário eleitoral local, Lula (PT) superou Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno no estado por 48% a 45%.

A severa estiagem impulsionada pelo super El Niño favorece a propagação do fogo ao acumular biomassa seca sobre o solo. No entanto, as chamas decorrem de ações humanas ligadas à grilagem, extração ilegal de madeira e pecuária. O impacto imediato atinge a população urbana, exposta a índices de poluição que superam em dez vezes o limite seguro de material particulado fino (MP2,5), gerando graves riscos respiratórios.

A guerra de narrativas políticas

A crise ambiental rapidamente se transformou em combustível eleitoral. Reeleito deputado federal por Minas Gerais com 3,1 milhões de votos, Nikolas Ferreira (PL) — que anteriormente recorreu ao empresário Vorcaro para atuar em prol de mineradoras no estado após os desastres de Mariana (2015) e Brumadinho (2019) — publicou vídeo atacando a atuação do governo Lula sobre as queimadas a 2.500 km do seu colégio eleitoral. A gravação somou 28,5 milhões de visualizações nas redes sociais.

Em termos estatísticos, a expansão do fogo foi expressiva: o Amazonas somou 3.726 focos de calor detectados por satélite em setembro, volume que representa o quádruplo dos 942 registros observados no mesmo mês em 2025.

O governo amazonense, gerido por Roberto Cidade (União) — candidato derrotado na tentativa de reeleição —, acusou a gestão federal de omissão e suposta recusa de socorro. Por sua vez, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) rebateu a versão, esclarecendo que a própria administração estadual recusou ajuda oficial em 30 de setembro, logo após precipitações controlarem focos pontuais. Além disso, R$ 45 milhões foram repassados em 2026 para equipar o Corpo de Bombeiros local com verbas do Fundo Amazônia, mecanismo que esteve paralisado no governo anterior.

Desmatamento e fogo: o que revelam os dados

Especialistas ressaltam que o fogo costuma ser utilizado em áreas desmatadas em anos anteriores para queimar vegetação residual ou limpar pastagens. Sob forte seca, essas queimadas saem de controle e invadem a floresta degradada. O motor principal do problema, portanto, é a derrubada prévia da mata.

Nesse quesito, os números oficiais marcam distinções nítidas entre os mandatos presidenciais. Nos dois primeiros mandatos de Lula, o índice de desmate teve retração de 83%. Durante a gestão de Jair Bolsonaro, a devastação cresceu 60% na comparação com o intervalo anterior de quatro anos.

Com o retorno de Lula ao Planalto e de Marina Silva ao comando do MMA, a curva voltou a declinar, atingindo uma redução de 71% até 2026. Naquele ano, foram derrubados 3.335 km² de floresta, marcando a menor taxa histórica de desmatamento registrada pelo Inpe desde o início da série temporal em 1988.

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