A decisão da Justiça francesa de revogar a prisão preventiva do suspeito de realizar um atentado terrorista de motivação racista em Paris levou centenas de manifestantes a ocuparem as ruas neste domingo (25) em homenagem às vítimas e para protestar contra o avanço ultradireita e do racismo no país.
Investigação e perfil do atirador
A Procuradoria Nacional Antiterrorismo anunciou que Kévin T., 39, foi transferido para uma unidade psiquiátrica da polícia para um período de observação de até 48 horas, a fim de determinar se possui condições de saúde mental compatíveis com a continuidade dos interrogatórios.
Segundo fontes próximas à investigação, o suspeito, que matou uma pessoa e feriu outras cinco, tinha diagnóstico prévio de esquizofrenia e fazia tratamento médico. Exames toxicológicos revelaram a presença de maconha e cocaína em seu sangue.
O ataque ocorreu na manhã de sexta-feira (23), quando o agressor abriu fogo a partir de seu carro com uma pistola-metralhadora contra transeuntes em um posto de gasolina, um centro médico e um parque infantil nas localidades de Trappes e La Verrière, ao sudoeste da capital.
O presidente Emmanuel Macron classificou a ação como um “atentado terrorista racista”, ressaltando que o atirador escolheu deliberadamente poupar determinadas pessoas com base na cor da pele e na aparência. Entre os cinco feridos, uma menina de 12 anos segue em estado crítico após ser atingida por oito disparos.
Durante as diligências, a polícia prendeu preventivamente quatro pessoas do convívio de Kévin T., incluindo seus pais. Na residência do suspeito, os investigadores apreenderam um exemplar de “Mein Kampf”, livro de autoria de Adolf Hitler, além de uma Bíblia e um Alcorão. O atirador também havia montado uma estrutura com três botijões de gás e chaves elétricas ligadas a um temporizador na intenção de explodir o próprio apartamento.
Repercussão jurídica e revolta popular
A decisão de remover o acusado da prisão provocou reação de Yassine Bouzrou, advogado da família de Pengo Bossio Wangi, um jovem francês de origem congolesa de 26 anos morto por Kévin.
“Chama a atenção uma recorrência preocupante: quando o atentado procede da extrema direita, a questão psiquiátrica se impõe muito rapidamente”, disse o criminalista francês de ascendência marroquina, famoso por atuar em casos de grande repercussão midiática. “Embora a perícia e a irresponsabilidade penal sejam princípios fundamentais, a simetria deve ser a regra: mesmas perícias, mesmos prazos de avaliação, seja qual for o perfil ideológico do acusado.”
Enquanto as autoridades confirmavam a transferência do acusado, a população e lideranças políticas locais saíram às ruas em Aubervilliers, no subúrbio de Paris, em uma marcha marcada pelo silêncio, homenagens e palavras de ordem. Acompanhados por autoridades municipais —como o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko —, os manifestantes carregavam faixas com fotos de Bossio Wangi e cartazes apontando a influência do discurso de ódio e da mídia no fortalecimento da extrema direita.
A designer Ella Samba se juntou ao protesto pelo medo crescente enfrentado pelas minorias e a normalização da retórica radical na França. “Este ataque racista é resultado do grande avanço da extrema direita na mídia. Como mulher negra, era importante vir apoiar a família”, afirmou. “Se a extrema direita chegar ao poder, a situação será francamente perigosa para nós.”
Ao final do trajeto, a multidão realizou um minuto de silêncio em memória de Bossio Wangi.
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