Pesquisadores identificaram um tipo específico de célula cerebral associada a mudanças no comportamento de raposas, utilizando dados de um experimento russo iniciado na década de 1950 com o objetivo de ver se esses animais poderiam ser criados seletivamente para se tornarem domesticados e semelhantes a cães, completos com rabos abanando e naturezas afetuosas. Quase 70 anos após o início deste projeto de reprodução de longo prazo, a ciência aponta bases biológicas para essa transformação.
Específica e detalhadamente, os cientistas descobriram que uma proteína receptora localizada no hipotálamo ventromedial pode formar a base do comportamento social das raposas. Essa região do cérebro é amplamente conhecida por estar envolvida em respostas de medo e defesa, além de reações de agressividade.
A pesquisa “gets to the heart of brain programming” (vai ao coração da programação cerebral) nos animais, aponta Cheryl Rosenfeld, neurocientista da Universidade do Missouri que não participou do estudo.
“If this can happen in foxes, it could also mean that, by altering the hormone profile or the receptor profile in us and even other species, it could change our patterns of behavior and last a lifetime”, destaca Rosenfeld.
O projeto de domesticação e a equipe de pesquisa A liderança sênior do estudo é de Eirene Markenscoff-Papadimitriou, bióloga molecular da Universidade Cornell que se autodenomina uma “accidental fox scientist” (cientista de raposas por acaso). Especialista primária em neurociência em camundongos, ela começou a investigar o Experimento da Raposa Prateada Domesticada em 2023. O projeto foi iniciado em 1959 por um grupo de pesquisadores russos com o cruzamento seletivo das raposas prateadas mais mansas.
Após poucas gerações, os animais começaram a adotar aparência e comportamento mais domesticados, exibindo orelhas caídas, rabos enrolados e forte desejo por atenção e carinho humano. O projeto continua em andamento como um modelo do poder da reprodução seletiva. Para entender o fenômeno, a equipe de Markenscoff-Papadimitriou quis analisar o que ocorria nos cérebros dos animais.
Diferenças biológicas e os próximos passos Os pesquisadores compararam os cérebros de três categorias de raposas criadas em fazenda — mansas, agressivas e selvagens —, focando especialmente no hipotálamo ventromedial, área ligada a comportamentos agressivos em ratos. Em investigações anteriores, cientistas haviam descoberto que a ativação de uma proteína receptora chamada receptor de estrógeno alfa tornava os camundongos mais agressivos. Publicado em 2 de novembro na revista Current Biology, o novo estudo revelou que as raposas mansas possuem notavelmente menos neurônios com o receptor de estrógeno alfa do que os animais agressivos ou convencionais.
O experimento transformou a visão de Markenscoff-Papadimitriou sobre a pesquisa com animais além dos camundongos.
“This showed me that we should be ambitious and follow our curiosity and that the tools that have been developed for just one species can be applied to others”, afirma a pesquisadora.
Tanto Markenscoff-Papadimitriou quanto Rosenfeld demonstram curiosidade sobre a possibilidade de o mesmo neurônio determinar o comportamento social em outras espécies, a exemplo de cães e lobos. Compreender as diferenças cerebrais abre margem para novas indagações científicas.
“How are the genetic differences of these different foxes leading to differences in the cell type composition of this brain region throughout development?”, questiona Markenscoff-Papadimitriou. “It’s a puzzle to solve, but now we know what we need to solve.”
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