A mais recente coletânea de textos organizada pela crítica literária Eliane Robert Moraes confirma que as palavras têm sexo, dialogando com um conto de Machado de Assis onde o narrador afirma que elas “Amam-se umas às outras. E casam-se”. Da cópula de duas palavras nasceu Erótica teórica: escritos sobre as fronteiras do sexo. O par é harmônico, pois forma um anagrama perfeito, embora a comunhão não soa muito natural à primeira vista, já que “erótica” remete ao corpo e “teórica” ao campo do pensamento.
“Tudo parece reforçar a incompatibilidade entre os dois substantivos, a segregar cada qual em seu mundo, como se fossem estranhos um ao outro”, escreve a organizadora na abertura. No entanto, a mente pode ser uma alcova excitante para fundir esses dois universos e dar origem a um corpo especial: um corpo de texto que chamamos literatura. “Erotismo é criação. A literatura é um trabalho de criação altamente libidinoso e, portanto, erótico. Toda boa literatura é erótica”, diz Moraes em entrevista à Quatro Cinco Um, parafraseando Italo Calvino, um dos nomes que figuram no livro.
A trajetória de uma estudiosa do sexo e das letras
Maior estudiosa do tema no Brasil e também “uma pornógrafa”, como faz questão de frisar, há pelo menos quatro décadas Moraes se dedica a investigar a relação entre sexo e letra. Além dos inúmeros ensaios, artigos e traduções — entre elas a do célebre História do olho (Companhia das Letras, 2018), de Georges Bataille —, desde 2015 vem publicando coletâneas. A primeira, Antologia da poesia erótica brasileira (Ateliê Editorial), está esgotada e chega a custar mais de quatrocentos reais em sebos virtuais. Em seguida, vieram duas reuniões de contos brasileiros divididos por época (de 1852 a 1922 e de 1922 a 2022) e a Seleta erótica de Mário de Andrade (Ubu, 2022).
Um livro em forma de espelho
A coletânea que chega às livrarias tem algo particular, pois não se trata de um recorte feito a partir de um gênero, tempo, movimento literário ou crivo convencional. Erótica teórica é uma “autobibliografia”, “uma seleção um tanto pessoal” produzida por alguém que se dedica à literatura erótica com “grande interesse e intensa paixão”.
“São aqueles livros da minha estante que, vira e mexe, estão abertos na mesa de trabalho. São reflexões sobre o erotismo com as quais dialogo, sem a preocupação de seguir uma linha teórica ou determinado movimento filosófico. O que chama a atenção é que esses pensamentos são, na maior parte, formulados por escritoras e escritores. Conforme fui organizando o livro, percebi que minha forma de pensar o erotismo se alimenta sempre da literatura”, explica Moraes.
A seleta funciona como uma “espécie de espelho” onde a autora se enxerga e oferece uma parte de si para os leitores. Essa característica de convocar vozes de terceiros revela que seu trabalho de curadoria é, na verdade, um ato de autoria. “Eu não aplico Bataille. Ele é um pensador com quem converso, que me ajuda no processo de interpretação”, diz.
Influências e encontros decisivos
A carreira da acadêmica foi guiada por nomes fundamentais. O Marquês de Sade (1740-1814) foi responsável por sua iniciação no universo erótico-literário durante as pesquisas para O que é pornografia? (1984), escrito com Sandra M. Lapeiz. Mais tarde, Hilda Hilst abriu as portas da literatura brasileira após um convite para resenhar O caderno rosa de Lori Lamby em 1990. A partir daí, Moraes leu toda a obra da autora e se tornou especialista em suas criações eruditas. “É metafísica ou putaria das grossas?”, reflete um personagem de Hilst em Contos d’escárnio: textos grotescos (1990). Em um artigo de 2003, Moraes escreveu que a obra hilstiana “propõe unicamente um contato inesperado entre opostos, associando o exercício do conhecimento à atividade sexual”.
Já o universo das coletâneas eróticas foi sugerido pelo poeta e ensaísta José Paulo Paes, seu “pai intelectual”, que a incentivou a explorar a literatura brasileira.
Um caleidoscópio de textos
A nova coletânea funciona como um “caleidoscópio” devido à variedade de gêneros, períodos, nacionalidades e perfis dos 21 autores reunidos, além de citações de Marguerite Yourcenar e Sade. O livro está dividido em três partes: “Pensamento”, focada no raciocínio conceitual com textos de Italo Calvino, Susan Sontag, Georges Bataille, D.H. Lawrence, Robert Musil, Agustina Bessa-Luís, Roberto Piva e Carlos Drummond de Andrade. É nessa seção que consta o ensaio de Sontag onde ela afirma:
A pornografia é apenas um item dentre as muitas mercadorias perigosas que circulam nesta sociedade e, por mais sem atrativos que seja, uma das menos letais, a menos custosa para a comunidade em termos de sofrimento humano.
Na segunda parte, “Corpo”, predomina a fisicalidade erótica com ensaios de Anne Carson, Yara Frateschi Vieira, Katherine Mansfield, Glauco Mattoso, Otavio Frias Filho e Cristina Peri Rossi. Por fim, “Palavra” reúne escritos sobre escritos de Sérgio Sant’Anna, Otto Maria Carpeaux, Bataille, José Paulo Paes, Reinaldo Moraes, Néstor Perlongher, Annie Le Brun e Amara Moira, cujo texto é o único inédito da obra.
Autoficção e molduras literárias
Moraes orienta a ler Erótica teórica como uma autobibliografia, mas a obra flerta com a autoficção ao utilizar excertos e vozes de personagens inventadas para abrir e encerrar o volume, apresentados criativamente “a título de epígrafe” e “a título de conclusão”.
No primeiro, o protagonista de Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, diz: “Por vezes sonhei elaborar um sistema de conhecimento humano baseado no erotismo. Uma teoria de contacto…”. No segundo, Juliette, personagem de Sade, reflete: “Ela está sozinha e entregue ao pensamento, deixando a mente seguir seu curso livre para refletir sobre a origem das ideias libertinas”. Para quem se expressa em comunhão com a voz de outros, trata-se de um gesto onde a autora revela suas próprias verdades por meio da boa literatura.
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