O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que gosta do presidente Lula (PT), na tarde desta segunda-feira (26). Em entrevista a jornalistas, ele afirmou: “Eu gosto do Lula, me dou bem com ele, mas as eleições parecem ter sido fraudadas”.
A declaração ocorreu após o republicano adotar silêncio sobre o resultado do pleito brasileiro no domingo. Questionado se pretendia tomar alguma atitude referente ao cenário político do Brasil, o líder norte-americano pontuou que comanda os Estados Unidos, e não o país sul-americano.
“Achei que foi uma situação muito ruim. Não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada. Francamente, não tomei partido, mas foi uma imagem péssima para o mundo. É mais uma eleição. Sabe, as eleições precisam ser incontestáveis, e aquilo me pareceu muito ruim”, disse ele.
“Não tomei partido. Não apoiei ninguém, nem nada. Mas acompanhei a eleição. Pareceu tão, tão corrupta, tão terrível”, completou o republicano.
Histórico de cautela e tensões
No domingo, o chefe da Casa Branca havia evitado manifestar preferência por qualquer um dos postulantes ao cargo, limitando-se a relatar que monitorava o pleito. “Não quero entrar nesse assunto, mas estamos acompanhando”, declarou aos repórteres ao sair da residência oficial.
A discrição destoou da postura do republicano em outras disputas latino-americanas e sucedeu um ano de atritos com a gestão petista, marcado por taxações comerciais, penalidades contra oficiais brasileiros e acusações de interferência norte-americana em questões internas do Brasil.
Mesmo com a proximidade com o clã Bolsonaro, Trump evitou endossar formalmente Flávio durante a campanha. Segundo apuração veiculada pelo jornal americano The Washington Post logo após o primeiro turno, a reserva estratégica visava evitar que uma manifestação pública do presidente dos EUA acabasse impulsionando Lula.
O receio fundamentava-se na vivência do ano anterior, quando a pressão de Washington contra o governo brasileiro gerou o efeito oposto ao planejado, fortalecendo politicamente o petista.
Crise comercial e impacto nas pesquisas
Em julho de 2025, o governante americano decretou uma sobretaxa de 50% sobre mercadorias do Brasil, vinculando a imposição ao processo judicial movido contra seu aliado Jair Bolsonaro, então investigado por suposta tentativa de golpe de Estado. A administração dos EUA também aplicou restrições de vistos a dirigentes brasileiros e sanções financeiras direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes, integrante do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em resposta, Lula criticou a iniciativa por atentar contra a soberania nacional e passou a explorar o episódio politicamente.
A tática repercutiu favoravelmente nos índices de popularidade. De acordo com o instituto Genial/Quaest, o índice de aprovação da gestão Lula, registrado em 40% em maio de 2025, avançou para 43% em julho e alcançou 46% em agosto, paralelamente ao agravamento do embate comercial com Washington.
O mesmo levantamento apontou que a retaliação do presidente brasileiro às tarifas recebeu avaliações positivas, enquanto a conduta de Bolsonaro e aliados diante da crise foi reprovada pelos consultados.
Em depoimento ao The Washington Post, um assessor da administração norte-americana declarou, sob anonimato, que a diretriz era abster-se de pronunciamentos que pudessem ser interpretados como interferência no processo eleitoral brasileiro.
A fonte destacou que, toda vez que Lula recorria a Trump para alegar tentativas de abuso ou exploração do Brasil pelos EUA, o discurso obtinha adesão do eleitorado. Na avaliação contrária, quando Washington se mantinha distante, o foco do debate retornava ao âmbito interno.
A eficácia da estratégia também foi admitida por correligionários de Flávio Bolsonaro. Ouvido pelo periódico norte-americano, o analista político Paulo Figueiredo avaliou que as tarifas decretadas por Trump em julho deste ano prejudicaram o senador nas sondagens durante um momento crítico da disputa.
Apesar da discrição, Trump elogiou o resultado obtido por Flávio no primeiro turno, ocorrido em 4 de outubro, quando o parlamentar liderou a contagem com aproximadamente 47% dos votos válidos, superando os 45% do atual presidente.
“Foi uma grande vitória, apertada, mas uma vitória muito, muito grande. Incrível, na verdade”, declarou o chefe de Estado americano no dia posterior à votação, antecipando um segundo turno acirrado.
As relações bilaterais enfrentaram sucessivas crises desde a posse de Trump para seu novo mandato em janeiro de 2025. Além dos atritos comerciais, a administração americana implementou sanções contra magistrados do Judiciário brasileiro e contestou resoluções da Suprema Corte, alinhando-se a demandas defendidas por integrantes da família Bolsonaro em território norte-americano.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, radicado no país norte-americano desde o ano anterior, articulou junto a oficiais dos EUA a aplicação de punições a representantes do governo do Brasil e do sistema de Justiça. O ex-parlamentar também mediou a aproximação entre Flávio e Trump, que acolheu o senador na Casa Branca antes do pleito.
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