A capital de Mato Grosso do Sul reúne uma identidade culinária singular, moldada pelo encontro entre costumes locais e fortes influências externas. Marcada por abrigar uma das mais expressivas comunidades de origem japonesa do Brasil, Campo Grande também compartilha hábitos das fronteiras com o Paraguai e a Bolívia, além de concentrar uma das maiores populações indígenas em perímetro urbano do país. Essa mistura se traduz em um circuito gastronômico rico e variado.
O sabor rústico das comitivas pantaneiras
No centro da cidade, o restaurante Comitiva do Helinho traz a essência da lida pantaneira para a mesa urbana. O proprietário, Hélio Martins Lopes, conhecido popularmente como Helinho, passou mais de uma década conduzindo gado pela região e transformou essas lembranças na base de sua cozinha.
A familiaridade com o fogão surgiu ainda aos 8 anos de idade, quando precisou aprender tarefas domésticas ao viver com o pai e os irmãos após a separação dos pais. O grande destaque do cardápio é o autêntico macarrão de comitiva, feito com a massa frita antes do cozimento, carne-seca e temperos bem marcados. “É justamente o alho que dá o toque especial ao prato”, diz Helinho.
O espaço reproduz o clima rústico do campo com móveis de madeira e registros fotográficos da trajetória do cozinheiro. Em esquema de bufê à vontade, os clientes têm à disposição pratos como arroz carreteiro, frango caipira e pirão de peixe, elaborados em uma cozinha aberta aos olhos do público. A administração do negócio já alcança a segunda geração com a presença da filha de Helinho, Tainá Elias Lopes. Formada em gastronomia com foco em confeitaria, ela assumiu o posto de sous chef após começar a ajudar o pai durante a pandemia, respondendo hoje pelas saladas e sobremesas.
Tradição e fronteiras no Mercadão Municipal
Fundado formalmente em 1958, o Mercado Municipal Antônio Valente tem origens que remontam aos anos 1920, época em que funcionava como uma feira próxima à linha do trem. O entreposto comercial reúne desde artigos regionais e temperos exóticos até itens artesanais típicos.
Entre os corredores, a Pastelaria do Milton atua há 36 anos servindo opções inusitadas. O carro-chefe é o pastel de jacaré, moldado na forma do próprio réptil e recheado com a proteína do animal, cuja textura se assemelha à do frango e traz notas suaves de peixe. O cardápio conta ainda com formatos temáticos de coelho, avestruz e de capivara, animal considerado símbolo local.
O ponto também é parada obrigatória para provar clássicos da fronteira com o Paraguai, como a chipa, servida quente para acompanhar o café, e a tradicional sopa paraguaia, que, apesar do nome, consiste em um bolo salgado de milho preparado com queijo, leite, ovos, cebola e fermento.
A presença oriental e o sobá tombado
Logo na entrada da Feira Central, uma escultura com mais de 4 metros de altura celebra o sobá, símbolo gastronômico do município. Introduzido há quase oito décadas por imigrantes japoneses, o prato — composto por macarrão, caldo quente, carne, tiras de omelete e cebolinha picada — deixou de ser apenas a refeição dos feirantes e se tornou Patrimônio Cultural Imaterial de Campo Grande em 2006.
Um dos balcões mais concorridos do espaço é o Jadi Sobá, comandado por Jadi Kamashiro ao lado de parentes. A dedicação ao preparo soma 26 anos no local, mantendo a fórmula da massa herdada de sua avó. “Quando criança, comia a massa em uma tigela e regava com molho shoyu.” Além do formato tradicional, o estabelecimento oferece opções contemporâneas com kani, peixe, camarão e uma versão vegana elaborada com shiitake e tofu.
Boemia simples e turismo ambiental
Para quem busca o clima descontraído dos botequins clássicos, o Bar do Nino, fundado em 2023, aposta na hospitalidade tradicional, com cadeiras de plástico trançado e cerveja servida em temperatura muito baixa. A estufa exibe tira-gostos como moela acebolada, bolinho de costela com muçarela, quiabo com bacon e fígado com jiló, reservando os sábados para o serviço de feijoada.
O circuito na capital sul-mato-grossense se completa com o Bioparque Pantanal, reconhecido como o maior aquário de água doce do planeta. A estrutura de 21.000 metros quadrados, desenhada pelo arquiteto Ruy Ohtake, abriga 5 milhões de litros de água, 239 tanques e 458 espécies aquáticas, incluindo ainda um setor educativo com animais taxidermizados que foram vítimas de ações humanas.
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