O olho que nunca fecha

Médico japonês mistura terror e tecnologia em duologia de sucesso

Cultura

Um médico que passou anos diante de pacientes em situações-limite encontrou na escrita literária uma maneira de investigar o medo e as inquietações humanas. Mikito Chinen, escritor japonês nascido em Okinawa, estreou na literatura com Dare ga Tame no Yaiba [Por quem a espada clama?, inédito no Brasil], há mais de uma década, e se viu alçado a autor best-seller com romances que exploram os mistérios de um mundo cada vez mais conectado.

“Ser médico faz com que nos deparemos com vários aspectos da vida dos pacientes”, conta Chinen por e-mail à Quatro Cinco Um. “Como atuava no pronto-socorro, passei por muitas experiências angustiantes. Acredito que isso serviu de base para a realidade que descrevo em meus livros.”

A obra do autor chega ao Brasil com uma duologia de horror em que o sobrenatural se confunde com uma das experiências mais banais da vida contemporânea: carregar um smartphone no bolso. Em Não mexa neste arquivo e Não mexa neste celular, traduzidos por Lídia Ivasa e Luis Libaneo, Chinen parte da lenda japonesa de Doumeki, um yōkai de inúmeros olhos, para imaginar uma sociedade em que ninguém está inteiramente fora do campo de visão de alguém. Câmeras de segurança, inteligência artificial, geolocalização e mensagens de celular deixam de ser apenas elementos da vida cotidiana e passam a alimentar uma narrativa em que a sensação de estar sendo observado ganha outra dimensão.

Para Chinen, além dos dispositivos de gravação, o desenvolvimento de inteligências artificiais tem feito com que a sensação de vigilância deixe de ser um delírio. “Entre pacientes com transtornos mentais, não são poucos os que se sentem ‘constantemente vigiados’. Porém, na sociedade atual, em que há câmeras de segurança por todo lugar, e com o desenvolvimento da inteligência artificial, isso deixou de ser um delírio e sinto que as pessoas talvez sejam monitoradas por programas”, diz.

Com mais de 140 mil exemplares vendidos somente no primeiro mês de lançamento no Japão e uma carreira que já inclui adaptações para a televisão e anime, Chinen entende que suas duas atividades, a medicina e a literatura, alimentam formas distintas de observar a realidade. É justamente na tessitura entre a dinâmica do pronto-atendimento, a forte cultura japonesa no gênero do horror e as novas tecnologias que se encontra parte da força de sua ficção.

O desafio de conciliar a medicina e a literatura

A trajetória até o sucesso exigiu muita disciplina. No período em que prestou o Exame Nacional de Medicina e nos anos que levou para obter o título de especialista em clínica médica, sua jornada de trabalho foi extenuante e ele não dispunha de tempo para escrever. Depois do título de médico, pediu transferência para um hospital com uma jornada de trabalho menos exigente e continuou escrevendo até tarde da noite.

Sua obra transita por mistérios do cotidiano, thrillers médicos e, mais recentemente, pelo terror sobrenatural. O autor aponta que desenvolveu as bases para criar obras de entretenimento lendo muitos livros de mistério e assistindo a muitos filmes. Além disso, pondera sobre as influências culturais de sua criação em Okinawa: se por um lado há uma natureza abundante no Japão, por outro o país é assolado por desastres naturais, fazendo com que divindades habitem a natureza e gerem a raiz do medo do ordinário.

O Japão passa por um boom de histórias de horror, especialmente do chamado falso documentário, em que os leitores têm a impressão de que as histórias aconteceram de verdade. Não mexa neste arquivo e Não mexa neste celular seguem essa linha.

A lenda de Doumeki e a invasão de privacidade

O yōkai Doumeki possui inúmeros olhos e, por enxergar através de tudo, sua lenda parece materializar a sociedade da vigilância. Para Chinen, essa figura mitológica era perfeita para o tema. Estar em constante vigilância promove, por um lado, a segurança pública, mas, por outro, resulta em uma sociedade sem privacidade, o que levanta o receio de que a liberdade humana esteja ameaçada.

O formato dos livros também inova ao se desenrolar por meio de mensagens de texto e capturas de tela em um espaço que simula um smartphone. A intenção era criar uma experiência fluida que mantivesse o texto ao mínimo necessário.

Questionado sobre os riscos da tecnologia atual, o autor destaca que a inteligência artificial melhora visivelmente os sistemas de segurança, mas esconde grandes perigos caso caia em mãos mal-intencionadas.

Vencer o prêmio Rose City Fukuyama, em 2011, marcou uma virada em sua carreira. O reconhecimento significou a validação de que seus livros poderiam agradar aos leitores e abriu portas para o mercado audiovisual. O Brasil é o primeiro país a publicar a duologia fora do Japão, algo que o escritor atribui aos laços profundos e à grande comunidade de descendentes japoneses no território brasileiro.

Para quem deseja conhecer mais de sua produção, Chinen recomenda títulos como o horror biológico Yomotsu ikusa, o suspense Real Face e obras voltadas para o público infantojuvenil como a série Takao Ameku, o médico detetive. Mesmo com uma década de dupla jornada, o autor garante que a motivação continua a mesma: entreter o público e levar suas histórias para novos horizontes.

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