Na Sicília, o luxo começa com um pão quente e termina com as mãos sujas de farinha

Luxo rústico na Sicília: conheça a fazenda que revolucionou a gastronomia

Gastronomia

Longe dos roteiros mais óbvios da ilha italiana, como as vitrines de Palermo e os panoramas do Mediterrâneo, existe uma Sicília menos fotografada onde o ápice do dia envolve uma fornada de pão fresco, um tomate colhido no momento exato ou azeite recém-extraído. Nessa região, o conceito conhecido globalmente como farm-to-table já era praticado muito antes de ganhar um nome em inglês para virar tendência.

É exatamente nesse cenário de mangas arregaçadas, panelas quentes e saberes passados entre gerações que fica a Susafa, uma masseria tradicional — nome dado às propriedades agrícolas típicas da área — situada perto de Polizzi Generosa, aos pés das montanhas Madonie. Sob o comando da família Saeli-Rizzuto há cinco gerações, o local passou mais de duzentos anos dedicado exclusivamente à agricultura antes de incorporar uma nova vertente: hospedar turistas curiosos em rastrear a origem do que consomem. Hoje, a estrutura conta com apenas 17 quartos, mas o grande atrativo está do lado de fora, espalhado pelos campos, pela horta e, principalmente, pela cozinha.

O coração gastronômico do lugar é o restaurante Semente, montado dentro de um antigo celeiro. Suas paredes de pedra, a terracota siciliana e a lareira monumental preservam a atmosfera de quando o espaço guardava safras. Atualmente, quem comanda o fogão é a chef executiva Maria Calato, encarregada de transformar a herança rural siciliana em pratos contemporâneos. O trigo ganha status de celebridade na propriedade, inspirando inclusive um menu batizado de Racconti del grano, ou Histórias do Trigo. A ideia é colocar em evidência um ingrediente fundamental para a identidade da fazenda e da culinária mediterrânea. Na Antiguidade, a Sicília funcionou como um dos grandes celeiros de Roma, legado que sobrevive nos pães de semolina de trigo duro e nas massas que elevam a simplicidade à virtude.

Contudo, o cardápio de Maria Calato vai muito além dos grãos. Tomates, berinjelas, abobrinhas, pimentões, cebolas, batatas e ervas frescas entram e saem do menu conforme a estação do ano. O azeite extravirgem consumido ali brota dos olivais locais, enquanto pequenos produtores da vizinhança ajudam a suprir a despensa. Nos mais de 40 hectares cultivados de forma natural e com certificação orgânica, o ritmo da natureza dita as regras: junho traz as cerejas, enquanto o verão encarrega-se do trigo e dos tomates banhados pelo sol. Trata-se de uma filosofia alinhada à cucina povera, vertente culinária siciliana que converteu ingredientes simples em clássicos como a caponata e a pasta alla Norma, provando que a excelência não depende de excessos.

Vivências na cozinha e no campo

Em Susafa, a experiência gastronômica continua viva mesmo após o encerramento das refeições, pois os visitantes podem participar ativamente da elaboração de massas frescas, focaccias e doces tradicionais. Colocar as mãos na farinha revela que certos segredos são passados de forma mais eficiente por quem os executa do que por manuais de receitas. Os workshops também exploram o lado doce da ilha, incluindo o preparo de cannoli, cassata e uma das misturas mais peculiares da Itália: o brioche com granita. Para os iniciantes, vale o esclarecimento: por lá, a granita passa longe de ser uma simples raspadinha. Feita à base de água, açúcar e componentes como amêndoas, limão ou café, ela possui consistência própria e pode ser saboreada até no café da manhã, acompanhada por um brioche macio.

Outra vivência imperdível gira em torno do pane e olio, a união elementar entre pão e azeite. O trajeto começa no plantio do trigo, passa pela moagem e pela fornada, e culmina no azeite da própria fazenda. Trata-se de uma verdadeira aula prática sobre os pilares da dieta mediterrânea, dispensando discursos complexos. As programações também abarcam caminhadas pela horta, provas de vinho e participação nas colheitas, variando conforme o período do ano. Já a adega do Semente aposta em garrafas sicilianas, expandindo a viagem de sabores para além dos limites territoriais da fazenda por meio de castas como Nero d’Avola, Grillo e Catarratto.

A proposta mais inusitada de Susafa talvez seja a chance de adotar uma fração da produção agrícola local. Intitulado Let’s Sow the Future, o projeto dá aos visitantes a oportunidade de apadrinhar uma oliveira, uma cerejeira, um pé de tomate ou um trecho de plantação de trigo. Como manda a lei da natureza, a resposta não é imediata: é preciso aguardar o tempo da colheita para receber os frutos transformados em azeite, geleia de cereja, purê de tomate, farinha ou massa artesanal. É uma espécie de assinatura culinária na qual o prazo de entrega obedece ao amadurecimento dos frutos, ignorando a pressa urbana.

A guinada de Susafa teve início em 2008, quando Manfredi Rizzuto resolveu reabilitar as construções rurais da família para receber turistas, sem desvirtuar a essência agrícola do espaço. O projeto une agricultores, pastores e artesãos locais, que compartilham saberes sobre a fabricação de queijos, ricota e outras tradições do campo. Integrante da Small Luxury Hotels of the World e da Considerate Collection — grupo voltado a hospedagens com forte apelo ambiental e cultural —, a Susafa propõe um conceito singular de luxo: em vez de iguarias raras importadas de longe, o privilégio reside em consumir o que brotou a poucos metros de distância, pelas mãos de quem conhece a fundo a história daquela terra.

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