O Partido dos Trabalhadores registrou no último domingo (25) o seu desempenho mais expressivo em um segundo turno na região Sudeste desde o ano de 2010. Embora a localidade tenha dado a vitória a Flávio Bolsonaro (PL), a margem nas urnas ficou consideravelmente abaixo das verificadas em pleitos anteriores.
O Sudeste representa o principal colégio eleitoral do Brasil, somando 66,3 milhões de eleitores, e concentrou 41% dos votos válidos nesta etapa final. Na prática, cada ponto percentual de variação na região equivale a 509 mil votos válidos, enquanto no Norte, por exemplo, esse impacto é de cerca de 100 mil.
Comportamento eleitoral diferenciado Diferente das demais regiões, o comportamento político do Sudeste segue um padrão próprio desde 2018. No Nordeste, 70% do eleitorado apoia o PT. Em contrapartida, o Centro-Oeste e o Sul registram cerca de 60% de adesão ao bolsonarismo, ao passo que o Norte permanece equilibrado.
A última vitória expressiva do partido no Sudeste havia ocorrido há 16 anos, quando Dilma Rousseff (PT) derrotou José Serra (PSDB) com 51,9% dos votos válidos. Desde então, a legenda não conquistou maioria na região, mas tem estreitado essa distância de forma gradual desde 2022.
Levantamentos eleitorais consolidados apontam que a diferença entre a votação de Lula e de Flávio no Sudeste foi de 2,8 milhões de sufrágios nesta disputa. Em termos absolutos, Lula conquistou no domingo 1,2 milhão de votos a mais na região em comparação a quatro anos atrás, ao passo que Flávio obteve cerca de 200 mil votos a menos que seu pai no segundo turno de 2022.
Fator antibolsonarista Especialistas apontam que o resultado não reflete necessariamente um crescimento orgânico do apoio a Lula na região. Para Carlos Melo, cientista político e professor do Insper, o elemento determinante para o triunfo do presidente foi a onda antibolsonarista na reta final da campanha.
“O sentimento de bolsonarismo na reta final” definiu o desfecho da eleição, avalia o professor. “O que elegeu o Lula não foi apenas o Nordeste, mas também a perda de espaço do bolsonarismo no Sudeste”, afirma. “Eles perderam na cidade do Rio de Janeiro, berço do bolsonarismo.”
Além disso, o petista concretizou uma virada inédita em Minas Gerais, onde triunfou com 50,43% contra 49,57%. Melo destaca o receio do eleitorado com o retorno do grupo de Flávio ao poder como um dos motivadores. “O medo de uma volta de Bolsonaro era maior que o medo da manutenção do Lula”, diz Melo, citando resultado de levantamento da Quaest.
Panorama nacional e cenário regional No balanço geral do país, o petista superou Flávio com uma vantagem de 4,4 milhões de sufrágios. O candidato do PL havia liderado o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, frente a 45,16% do atual presidente. A campanha governista respondeu com forte mobilização digital e nas ruas, culminando em uma virada inédita no segundo turno.
Apesar da redução da vantagem no Sudeste, o Nordeste manteve-se como o principal reduto eleitoral petista. Lula atingiu a marca recorde de 24,4 milhões de votos na região de onde saiu em 1952 rumo a São Paulo, superando o adversário por 13,7 milhões de votos de diferença. Foi a maior votação da história do partido no local, superando a vantagem de 12,6 milhões em 2022 e de 11,5 milhões em 2018. Proporcionalmente, contudo, o ápice ocorreu em 2006 contra Geraldo Alckmin, quando alcançou 77,1% dos votos válidos.
Na outra ponta, o Sul segue como a região mais resistente à sigla. Os três estados conferiram a Flávio Bolsonaro 62,6% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 37,4%. A vantagem do candidato do PL foi de 4,6 milhões de sufrágios, cerca de 200 mil a mais que o desempenho paterno em 2022. O Sul foi a única área geográfica onde o percentual destinado ao PT encolheu ante o pleito anterior, quando registrou 38,2%.
Disputa acirrada no Norte e estabilidade no Centro-Oeste O Norte testemunhou o confronto mais equilibrado do segundo turno. Lula venceu na região por 50,01% a 49,99%, uma margem nominal de apenas 1.079 votos em um colégio eleitoral de 13,1 milhões de eleitores. O resultado recupera o espaço perdido pelo partido nas duas eleições passadas, quando Jair Bolsonaro havia vencido em 2022 (51% a 49%) e em 2018 (51,9% a 48,1%).
No Centro-Oeste, o cenário permaneceu estável. Flávio obteve 60% dos votos válidos, patamar equivalente aos 60,2% do pai em 2022, assegurando uma vantagem de 1,9 milhão de votos (ante 1,8 milhão quatro anos antes). Ainda assim, o petista bateu recordes de votos absolutos em ambas as regiões, alcançando 5 milhões de eleitores no Norte e 3,7 milhões no Centro-Oeste, superando as marcas de 2022, que foram de 3,5 milhões e 4,5 milhões, respectivamente.
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