Modernidade periférica

Livro revisita a literatura negra e a modernidade periférica em São Paulo

Cultura

Intelectuais negros tiveram de imaginar e concretizar uma realidade social na qual pudessem se reconhecer como protagonistas: essa é uma das principais hipóteses de Estrela do novo rumo: literatura negra e os sentidos da modernidade periférica, obra assinada por Mário Augusto Medeiros da Silva. O compêndio traz um abrangente percurso histórico e literário sobre a autoria negra paulista, reunindo referências e notas que vão do século 18 até o começo do século 21, com foco especial na análise de ações culturais e autorais do século 20, década a década.

Enfrentando os limites impostos pela historiografia literária hegemônica no Brasil, a publicação demonstra como artistas, coletivos e intelectuais negros criaram espaços próprios para expressar seus desejos e reivindicações dentro da modernidade.

O autor escreve que “a história da modernidade capitalista burguesa ocidental é a de destruições em intensa aliança com racismo, sexismo e colonialismos variados”. Com essa premissa, a compreensão tradicional do progresso, da racionalidade e da urbanização é deslocada, revelando que tais avanços também foram edificados sobre bases de violência, exclusão e hierarquização.

Dessa forma, a modernidade periférica e negra retratada na obra não surge unicamente como reação ao mundo burguês branco, mas como genuína capacidade criadora capaz de inspirar coletivamente o próprio centro. Trata-se de uma modernidade inventiva que ressignifica objetos e espaços urbanos.

A luta contínua por direitos e pela memória social da cidade orienta a pesquisa teórica do autor, que resgata trajetórias de escritores, escritoras, associações, territórios e grupos teatrais. Figuras como Raul Joviano do Amaral, Cumba Júnior, Correia Leite, Lino Guedes, Ruth Guimarães, Solano Trindade, Carolina Maria de Jesus, Oswaldo de Camargo e Sérgio Vaz destacam-se entre os pilares fundamentais para compreender essa vertente literária.

Ampliando a historiografia literária nacional

O lançamento insere esses nomes — presentes em arquivos, jornais e periódicos — na história oficial da literatura brasileira. Contudo, a trajetória de Ruth Guimarães, que no início do século 20 obteve espaço na crítica literária branca com o romance Água funda, evidencia que ocupar tais posições exigia o enfrentamento contínuo das estruturas raciais do campo literário. A presença da autora ilustra a complexidade das relações entre autoria negra, crítica e mercado editorial.

O pesquisador também destaca o movimento teatral paulista entre 1945 e 1966, protagonizado pelo Teatro Experimental do Negro e pelo Teatro Popular Brasileiro. Na sequência, oferece uma leitura essencial sobre Carolina Maria de Jesus, devolvendo à escritora uma dimensão frequentemente ignorada pelas análises tradicionais de Quarto de despejo: Carolina não era apenas uma mulher periférica registrando sua própria miséria, mas uma autora focada em construir uma carreira literária, com claros propósitos estéticos e disputas comerciais no mercado editorial.

O fetiche em torno da figura da “negra escritora” e o racismo velado na imprensa e na crítica demonstram como o trabalho da autora foi consumido sob o prisma restrito da pobreza.

Outro ponto alto é a análise sobre Oswaldo de Camargo, cuja trajetória interliga literatura, memória e militância cultural. A inserção do cineasta Zózimo Bulbul — participante de clássicos do Cinema Novo como Ganga Zumba, de Cacá Diegues, e Terra em transe, de Glauber Rocha — reforça a imensa amplitude das redes culturais negras daquela época.

Nas décadas de 1980 e 1990, o livro evidencia a relevância das antologias Cadernos Negros e do coletivo Quilombhoje, onde Conceição Evaristo, Cuti e Miriam Alves integraram a geração que consolidou a literatura negra como um projeto coletivo.

Encruzilhada cultural

O movimento hip-hop, representado pelos Racionais MC’s, consolida-se como uma grande encruzilhada nessa trajetória de disputa pela palavra. Já nos anos 1990 e 2000, nomes como Ferréz, Sérgio Vaz e o coletivo Cooperifa assumem o protagonismo da cena. “Nóis é ponte e atravessa qualquer rio” é a voz da Cooperifa anunciada por Vaz e sintetiza uma concepção de cidade na qual os limites territoriais podem ser atravessados pela literatura e pela organização cultural.

A obra reconstrói o passado cultural paulistano e expande a historiografia do país, desenhando uma cartografia da presença negra em São Paulo composta por ruas, bairros, teatros, jornais, livros, espaços culturais, bem como por episódios de apagamento e resistência. Afinal, a presença negra sempre integrou a modernidade paulistana.

Por fim, o lançamento realiza um levantamento monumental de obras e autores, mas sua principal força reside no questionamento crítico sobre quem tem o direito de ser lembrado na história.

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