Com uma trajetória marcada por importantes reconhecimentos, a renomada escritora Conceição Evaristo detalhou sua rotina intensa de compromissos literários, o impacto de sua produção e os planos futuros que incluem uma pausa programada para 2027. Antes de uma entrevista na Casa Escrevivência, no Rio de Janeiro, a autora precisou alterar sua agenda de última hora diretamente de um hotel em Belo Horizonte. “Adriana, tive de fazer essa viagem. Uma pesquisadora que trabalha a autoria negra muito menos antes de eu estar na mídia lança um livro hoje na Academia Mineira de Letras, onde também sou acadêmica. Precisava estar aqui”, explicou.
A postura de valorizar ações locais e comunitárias acima de grandes holofotes define o perfil da autora. “Não posso estar num evento internacional e deixar de ir a um município cheio de carências”, afirma. Em um único mês, Conceição participou de eventos de grande porte na Bienal de São Paulo, lançou publicações conjuntas com Eliana Alves Cruz e reuniu romances e poesias em caixas especiais pelas editoras Malê e Pallas, além de receber homenagens na Festa Literária das Periferias (Flup) e passar o bastão de samba-enredo para a União Nacional dos Estudantes (UNE) na quadra do Império Serrano.
“Meus livros são estudados na academia, traduzidos em inglês, francês, tcheco, árabe, espanhol, italiano, mas vê-los circular numa escola de samba, onde as classes populares exercem sua liberdade de criar e festejar, é outra coisa. O que vivi no fim de semana mostra que a literatura vale a pena”, declarou.
Agenda de lançamentos e novos projetos
Até 2027, ano em que planeja reduzir o ritmo para se dedicar integralmente à escrita, a autora acumula estreias e comemorações. Seu aniversário, em 29 de novembro, será marcado pela estreia da ópera-escrevivência no Theatro São Pedro, em São Paulo. Ela também fará sua estreia como atriz no filme Se eu fosse vivo… vivia, de André Novais, além de participar da versão em documentário de Escreviventes, dirigida por Estevão Ribeiro.
A relevância de sua obra gera comparações de peso no cenário internacional. “Conceição Evaristo é a maior escritora contemporânea. Fosse o mundo mais justo, ela venceria o Nobel”, avalia o crítico literário Luiz Mauricio Azevedo. Durante a Flip, a ativista Angela Davis também destacou o papel da autora: “Coloco Conceição no mesmo nível de Nina Simone e Toni Morrison”.
Raízes, militância e a criação da escrevivência
A proximidade com Angela Davis remete à juventude de Conceição nos anos 70, época em que adotou o visual black power inspirado em uma foto da ativista americana. O estilo, que desafiava os padrões da época em Belo Horizonte, gerou episódios difíceis, mas fortaleceu sua caminhada política e intelectual. Posteriormente, sua escrita ganhou projeção nacional por meio de coletivos como o Grupo Negrícia e o Quilombhoje, marcando presença nos Cadernos Negros.
O romance Ponciá Vicêncio, escrito em um momento de luto pela perda de seu marido, consolidou-se como uma de suas obras fundamentais. “Ponciá Vicêncio é um romance que introduzo nas minhas aulas na USP e em Princeton, sobretudo porque Ponciá é uma história individual, mas também coletiva”, aponta a historiadora Lilia Schwarcz.
O conceito de “escrevivência”, cunhado por ela, define a resistência de sua identidade literária. “Escrevivência é o nome que Conceição deu ao processo de resiliência de seu DNA literário num mundo de massacre e violência contínua, no qual a literatura era quase um luxo pornográfico”, resume Luiz Mauricio Azevedo.
Novas obras e futuro literário
Ao refletir sobre sua trajetória prestes a completar oitenta anos, a autora reforça seu compromisso rigoroso com a arte. “Assim como um músico não pode tocar qualquer banalidade, não se pode escrever qualquer coisa. A arte não é brincadeira. Por isso, demoro tanto, porque leio, releio, peço aos amigos para dizer o que acham. Com o amadurecimento, a gente se torna ainda mais exigente.”
Entre os futuros lançamentos programados estão a finalização de Flores de mulungu, o livro O silencioso pranto dos homens, uma antologia de poemas, um volume de crítica literária, memórias inspiradas nos diários de sua mãe intitulado Em nome di mãe, e a ficção O segredo da velha.
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