Angústia de unha

Crônicas do cotidiano revelam pequenos absurdos da vida moderna

Brasil

O cotidiano é repleto de situações paradoxais, desde a busca por atendimento médico especializado até reuniões de trabalho intermináveis que resultam em silêncio. Meu pai tem úlcera gástrica e passa mal se toma café. Meu pai tem enxaqueca e passa mal se não toma café. Ele diz que precisa ir ao médico e esperamos dois meses por uma consulta com um gastroenterologista do Sírio-Libanês. O atendimento dura duas horas e saímos de lá com a certeza de que, por uma quantia indecente de reais, pudemos apreciar uma aula-espetáculo sobre mucosa, submucosa, “muscular layer”, “lesser curvature”, “peptic cells”. À noite, por telefone, meu pai diz que não entendeu nada da explicação do médico, mas que o farmacêutico da sua rua recomendou que ele tomasse café, sim, só que pouco.

No ambiente profissional, a burocracia e a falta de alinhamento também geram cenas inusitadas. Dez pessoas participam da reunião. Demorou semanas para que as dez pessoas pudessem estar presencialmente juntas em um mesmo dia e em um mesmo horário. Café? Água gelada, em temperatura ambiente ou mista? Liga o ar-condicionado? Vai precisar de Canva ou Google Slides? Estamos aqui reunidos para sugerir que você entreviste o “outro lado”. Pedem isso em nome de um programa mais “complexo e dinâmico”. Jesus Maria José me segura me abana me ilumina me ajuda a seguir empregada apesar da face de repulsa nauseante que estou fazendo agora e tudo sem vírgula. Me indica um único bolsonarista que valha a pena entrevistar? Silêncio absoluto. Somos dez jovens adultos meio idosos completamente calados por infinitos segundos. Topam que eu siga trabalhando do meu jeito.

As dinâmicas familiares e infantis trazem seus próprios desafios. A amiguinha da minha filha tem “angústia de unha”. A mãe me pede recomendação de neuropediatra. A menina é uma Zezinha do Caixão. Seu rosto tem pequenos arranhões causados pelas unhas gigantescas e meio amareladas. Cada vez que tenta cortar a unha da menina, a mãe envelhece dez anos. A garotinha chora, berra, tem crises nervosas, taca brinquedos nas pessoas, faz a mala para fugir de casa. Coloca band-aid em todos os dedos quando as unhas são cortadas. Tem aflição das lascas de unha caídas no chão. Tem aflição da unha que sobra no dedo depois da poda. A mãe me pede recomendação de neuropsicopediatra com foco em “angústia de unha”. A menina vem dormir aqui em casa. Quando ela pega no sono, corto suas unhas. Pela manhã a criança está tranquila e pede panquecas de aveia com banana.

Até mesmo a ajuda na lição de casa pode se transformar em um choque de gerações e métodos educacionais. Minha filha está aprendendo a fazer conta de divisão com um método completamente diferente do meu. Sempre que ofereço ajuda na lição de casa, ela fica indignada e diz que aprendi de um jeito estranho porque sou velha. Então vou até a escola falar para a professora que minha filha precisa aprender a fazer a conta de divisão direito para não ter de contar com a minha ajuda na lição de casa, já que aprendi a fazer conta de divisão com um método diferente do que ela está aprendendo e, portanto, posso atrapalhá-la. A professora da minha filha me ensina a fazer a conta de divisão com o método que minha filha aprendeu, e isso leva dois segundos. Já posso ajudar minha filha na lição de casa.

Por fim, a longevidade traz reflexões peculiares sobre a saúde e a vontade de viver. Minha tia de 85 anos diz que quer morrer. Não aguenta mais dar trabalho para os filhos. Eu respondo que não é simples, pois seus exames de sangue estão ótimos. Seu médico garantiu que ela só morre se quebrar o quadril. Pergunto se ela quer quebrar o quadril, e ela pondera que por enquanto não. Este ano prefere não quebrar o quadril. Ela decide então comprar tinta para o cabelo.

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