A Alemanha declara guerra à Rússia e Kafka vai nadar

Franz Kafka e o peso das eleições no cotidiano brasileiro

Brasil

Em seu diário, Franz Kafka registra banalidades, ideias para contos, o barulho de vizinhos, mulheres, a dureza do pai, uma bronca do chefe. A entrada de 2 de agosto de 1914, porém, virou clássica: “A Alemanha declarou guerra à Rússia –à tarde, natação.”

É uma maravilha de concisão e de jogo de escalas. Às portas do que viria a ser a Primeira Guerra Mundial, ele decide fazer o que pode. Nadar, no caso.

Por aqui, não foi a guerra, mas a virulência das eleições que parece ter conspirado contra o protagonismo de nossos atos cotidianos. Diante da emergência das eleições, tudo ficou irrelevante.

Reuniões, por exemplo. Fui ao edifício Martinelli, no centro, para uma reunião de conselho. Todos pareciam distraídos, talvez pensando na divulgação da enésima pesquisa eleitoral. Na saída, a multidão no calçadão também parecia distraída.

Outro dia, fui dar uma aula sobre um assunto que já se anunciava árido, mas que se tornou insuportável para os alunos. Quem quer falar sobre sistemas de transportes metropolitanos diante da iminência das eleições?

O celular virou um instrumento de guerra. “Explode!” A minha bolha não conversa com a outra bolha. Distopias pós-eleitorais espoucavam nos posts. Na marginal, a água do rio Pinheiros parecia mais malcheirosa que o normal. Queria poder falar do rio Pinheiros e discutir o projeto para os Campos Elíseos ou o calçadão do centro de São Paulo, mas todos os temas foram soterrados pela mobilização imperiosa da militância digital. “Atenção, urgente.”

Na academia, um homem ligou o chuveiro e deixou a torneira aberta enquanto conversava, e eu fiquei tentado a identificar seu voto pela água que ele desperdiçou. Será que crenças políticas podem ser identificadas pela água que as pessoas desperdiçam? Pensei em chamar a sua atenção, mas me calei com medo de reações violentas e, como Kafka, entrei na piscina para dar minhas poucas braçadas.

Encontrei amigos num começo de noite. Ao contrário dos nossos happy hours normais, em que assuntos sérios se tornam leves, naquele dia falamos pesadamente sobre as eleições. Uma discussão se insinuou. “É pela democracia.” Alguém fechou a cara. Decidimos, em nome dos anos de amizade, cortar o assunto e ir embora.

Urnas fechadas, votos contados, sinto um alívio gigantesco, vejo gente celebrando pelas ruas, intuo outros resignados em suas casas. Espero pelo prazer da normalidade e do convívio possível entre ex-adversários, mas surgem as notícias desconcertantes da fuga rocambolesca para os Estados Unidos, dos desdobramentos e das especulações fantasiosas.

Era ingenuidade imaginar que houvesse um fim com uma vitória incontestável e o início de um novo ciclo; não há fim, talvez nunca haja.

Se o comentário de Kafka emula a alienação insalubre ou um escape desculpável, não sei, mas provavelmente essas eleições demonstraram que tudo está, de fato, conectado, quando os pressupostos da urbanidade são ameaçados.

As consequências da escolha de um presidente são mesmo gigantes. A floresta, a água que bebemos, o rio que garante as irrigações das plantações no cerrado, a preservação de uma aldeia indígena no Tocantins, a democracia, as ações de empresas que vendem os produtos que compramos e combate à desigualdade são consequências naturais e quase óbvias do resultado.

O que não é óbvio é que há outras conexões mais sutis. Será que, se normalizássemos o xingamento, a tiração de sarro com minorias, a mentira contumaz, as más companhias, não estaríamos abrindo uma porta para o fim da urbanidade, que, aliás, já anda tão ameaçada? A raiva parece uma má conselheira para um país que, para o bem ou para o mal, ainda cultiva a diversidade e a alegria.

A Paulista no domingo foi linda. Hoje, de volta, acompanho a multidão num dia útil, olho para o sinal verde, espero que o motoqueiro retardatário passe e sigo em frente. O Brasil é gigante, parece maior depois das eleições. Agora é ter coragem para atravessar o cotidiano, à sombra de outras e mais outras notícias.

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