A influência de Nayib Bukele cruza fronteiras e impulsiona uma onda de medidas de segurança linha-dura inspiradas em sua gestão em El Salvador, país que passou de um dos mais violentos do mundo a um dos mais seguros por meio de detenções em massa. O modelo gerou enorme repercussão internacional e passou a ser replicado por líderes de diversas nações sul-americanas e centro-americanas, contando com o endosso explícito de figuras influentes como o presidente Donald Trump.
Essa tendência, amplamente conhecida como a “bukelização” da América Latina, ganhou força após inspirar políticos como Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Ao estruturar sua campanha, ele adotou propostas voltadas à construção de cinco novos presídios de segurança máxima, além de penas de oito anos de prisão para ladrões de celulares e castração química para estupradores e pedófilos, afirmando em um comício recente: “Estou começando a achar que El Salvador não é suficiente”.
A onda punitivista se reflete em ações concretas por toda a região. Presidentes da Colômbia, do Equador e da Costa Rica intensificaram operações repressivas e divulgaram produções audiovisuais sofisticadas nos moldes salvadorenhos. Rodovias no Peru exibem propaganda de um político autodenominado “Bukele peruano”, enquanto dezenas de autoridades estrangeiras visitaram o centro de confinamento com capacidade para 40 mil detentos para fortalecer suas imagens públicas. Atualmente, oito países contam com projetos em andamento para erguer prisões de segurança máxima semelhantes.
O sucesso estatístico de El Salvador é o principal motor dessa popularidade. Segundo dados oficiais, os homicídios despencaram 95% desde que Bukele assumiu o cargo em 2019, fazendo com que sua aprovação popular ultrapasse os 90% em pesquisas de opinião.
“Ele realizou um milagre”, disse Steven Levitsky, professor de governo de Harvard que estuda líderes autoritários. “Por isso, os políticos estão reproduzindo seu discurso, seu estilo e seus presídios de segurança máxima”, acrescentou.
Apesar disso, especialistas apontam que o sucesso do método salvadorenho está intimamente ligado à concentração absoluta de poder e ao desmonte de salvaguardas institucionais e democráticas. A questão em aberto, porém, é: o que esses líderes realmente conseguirão alcançar e como isso transformará a América Latina? “Tenho quase certeza de que isso vai acabar mal”, disse Levitsky.
As particularidades e os limites do modelo
Diferente de abordagens tradicionais baseadas no combate a cartéis com forças militares e armamentos pesados — estratégias amplamente testadas no México e na Colômbia ao longo das últimas décadas —, a gestão salvadorenha focou em prisões em massa, suspensão de direitos constitucionais por meio de estados de emergência por tempo indeterminado e julgamentos coletivos onde testemunhas anônimas depõem contra dezenas de réus. As medidas levaram El Salvador a registrar a maior taxa de encarceramento do mundo, com o aprisionamento de quase um em cada 80 habitantes nos primeiros dois anos da campanha, conforme apontou o pesquisador Manuel Meléndez-Sánchez, da Universidade de Notre Dame.
Essas ações reduziram os homicídios para menos de dois por 100 mil habitantes, ante cerca de 50 quando Bukele foi eleito e 100 uma década atrás. No entanto, replicar tais resultados em nações com realidades institucionais e territoriais distintas tem se mostrado um desafio complexo.
No Equador, por exemplo, o presidente Daniel Noboa adotou medidas enérgicas, decretando estado de emergência e mobilizando 22 mil militares contra as gangues em janeiro de 2024. Apesar de quase 58 mil prisões terem sido realizadas no último ano, a taxa de encarceramento não acompanhou o mesmo ritmo devido à atuação de juízes que liberaram muitos detidos à espera de julgamento. Como consequência, em 2025 os homicídios no Equador dispararam 30%, atingindo um recorde de 9.200 casos, embora tenham registrado recuo posterior.
“O que realmente define seu modelo e explica os resultados é a inexistência da Justiça”, disse Laura Chinchilla, ex-presidente da Costa Rica. É Bukele, e não a lei, quem “decide quem será preso e quem continuará na prisão”.
Por fim, analistas avaliam que os novos líderes latino-americanos tendem a seguir dois caminhos distintos: minar as democracias para tentar conter o crime ou adotar apenas fragmentos estéticos da estratégia sem obter ganhos reais na segurança pública.
“Seja qual for o caminho, acho que isso terá consequências muito ruins para a violência criminal, muito ruins para os direitos humanos e muito ruins para as instituições democráticas”, afirmou Meléndez-Sánchez.
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