A vinicultura enfrenta um dilema constante entre o tempo da natureza e as rápidas mudanças de comportamento da sociedade. Entre as decisões no vinhedo e a chegada de um novo rótulo às prateleiras, podem transcorrer até três anos, tornando o desafio de prever o paladar futuro uma das tarefas mais complexas da enologia, conforme avalia o especialista argentino Pablo Richardi.
Comandando a vinícola Flechas de Los Andes, localizada no Vale de Uco, em Mendoza, há mais de vinte anos, o profissional testemunha uma alteração profunda que vai desde a gastronomia até as adegas. Os tintos de alta concentração alcoólica e forte presença de madeira, tradicionais no passado, agora dividem espaço com opções mais frescas, estruturadas com taninos delicados e focadas na elegância. Formado na França e com passagens por propriedades de prestígio em Bordeaux, Richardi integra o projeto criado pela união entre a família Rothschild e Laurent Dassault, estabelecido em Vista Flores em 1999 e integrado ao famoso Clos de los Siete.
Mudanças no consumo e na gastronomia
Essa reviravolta no consumo acompanha a evolução culinária, marcada por pratos mais leves e combinações distantes de molhos pesados e carnes vermelhas em excesso. Atualmente, o mercado abriga duas gerações distintas: consumidores entre 40 e 60 anos que mantêm a preferência por tintos longevos e marcados pelo carvalho, e o público de 30 a 40 anos, mais aberto a estilos variados sem a exigência de grifes tradicionais. Variedades como Pinot Noir e Cabernet Franc ganham força impulsionadas por jovens e mulheres, que buscam menor estrutura tânica sem abrir mão da complexidade.
Para o enólogo, a democratização da qualidade também redefine a relação com a bebida. “Não é preciso gastar muito dinheiro para beber vinhos corretos”, afirma, validando a ideia de moderação sem associar o ato de beber melhor exclusivamente a preços elevados. O movimento reforça a liberdade de escolha, distanciando o público de regras rígidas impostas por especialistas. “O mundo do vinho é muito complexo, mas beber vinho é muito simples”, resume, aconselhando que o público confie no próprio paladar.
O diferencial do mercado brasileiro
A vivência internacional permite a Richardi enxergar o Brasil sob um prisma singular. Enquanto vizinhos sul-americanos consomem majoritariamente o que produzem, o mercado nacional destaca-se pela ampla variedade de origens. “O Brasil tem a maior oferta de vinho da América do Sul. Aqui conseguimos encontrar vinhos do mundo todo, de todas as qualidades e de todos os preços”, aponta.
O especialista reforça que “A oferta de vinho em São Paulo é a mesma que pode haver em Nova York, em Londres ou em Tóquio.” Essa diversidade estimula um público mais exigente, disposto a explorar rótulos frescos e novas interpretações de uvas clássicas.
Duas faces dos Andes na prática
Na Flechas de Los Andes, essa dualidade reflete-se em dois rótulos distribuídos pela La Pastina. O Punta de Flechas Malbec 2020 aposta na expressão frutada da uva, com 14% de álcool e estágio parcial de 12 meses em carvalho francês, ideal para acompanhar carnes grelhadas e churrasco pelo preço sugerido de R$ 142,40.
Em contrapartida, o Héritage Gran Cabernet Franc 2021 traduz a busca por refinamento na altitude de Mendoza. O vinho descansa por 14 meses em foudres, resultando em 14,5% de álcool, taninos firmes e notas de especiarias e menta, comercializado por R$ 254,40. Para Richardi, a essência da atividade permanece inalterada: unir técnica, identidade e o prazer descomplicado de abrir uma garrafa.
What do you feel about this post?
Like
Love
Happy
Haha
Sad
