A estreia comercial do primeiro iPhone dobrável da Apple enfrentou um contratempo inicial após diversos compradores apontarem falhas e telas quebradas poucos dias depois do início das vendas, um fenômeno que rapidamente ganhou o apelido de “Crackgate”.
O aumento repentino de queixas compartilhadas nas redes sociais sobre as falhas aparentes do iPhone Duo representa um revés incomum para uma corporação que construiu grande parte de sua reputação com base na excelência de seu hardware.
O incidente também surge como um teste delicado para o novo presidente-executivo da Apple, John Ternus, que assumiu o posto no mês passado após suceder Tim Cook. A expectativa dos investidores é que Ternus traga novo fôlego ao cronograma de lançamentos da companhia. Ele fará sua estreia em uma teleconferência trimestral de resultados na próxima segunda-feira (26).
Posicionamento oficial e histórico de falhas
A própria Apple reconheceu publicamente que um “pequeno número” de aparelhos apresentou falhas nas telas logo após a chegada do Duo às lojas na última sexta-feira (23).
“Estamos cientes de um problema que afeta a tela interna de um pequeno número de unidades do iPhone Duo”, afirmou a empresa. “Se os usuários tiverem problemas com a tela do iPhone Duo, devem entrar em contato com o AppleCare para solicitar a substituição do aparelho.”
Ao longo da última semana, postagens globais em redes sociais exibiram unidades do iPhone Duo com uma mesma rachadura horizontal, situada na seção superior do visor quando o dispositivo está aberto. Embora a real dimensão dessa falha ainda permaneça incerta, o episódio lembra outro lançamento conturbado da marca.
Em 2010, compradores do iPhone 4 reportaram quedas de ligações e sinal instável em um escândalo conhecido como “Antennagate”. Na época, o então presidente-executivo da Apple, Steve Jobs, chegou a minimizar as queixas ao alegar que os consumidores estavam “segurando o aparelho do jeito errado”, antes de ceder e distribuir capas protetoras de forma gratuita.
Até o momento, a Apple descartou o recolhimento de qualquer lote dos celulares dobráveis. Uma ação dessa natureza seria atípica para a gigante de tecnologia, que prefere apostar em programas de suporte técnico e troca para contornar defeitos.
Mercado de dobráveis e desafios de engenharia
Disponibilizado por um preço inicial que ultrapassa US$ 2.000 (R$ 10.818), o Duo representou a maior reformulação de design do iPhone em quase vinte anos de trajetória. A chegada da Apple a esse segmento ocorreu sete anos depois de sua principal concorrente, a Samsung, lançar o pioneiro Galaxy Fold.
O histórico do setor mostra que a tecnologia não é imune a percalços. Em 2019, a própria Samsung enfrentou obstáculos na estreia de seus visores dobráveis após unidades de testes apresentarem trincas.
A respeito do desenvolvimento, Ternus pontuou que a Apple preferiu aguardar para evitar um produto “barato e de baixa qualidade”, priorizando o aperfeiçoamento da engenharia necessária para entregar uma dobradiça firme e uma tela interna uniforme.
Para Francisco Jeronimo, vice-presidente da consultoria IDC, as dificuldades com o Duo evidenciam que “mesmo uma empresa com os recursos de engenharia e a disciplina na cadeia de fornecedores da Apple enfrenta uma curva de aprendizado íngreme no mercado de dobráveis”. A similaridade entre os casos relatados na web, segundo ele, “aponta para uma possível sensibilidade nas tolerâncias da dobradiça ou na forma como a tela é sustentada durante a dobra”.
Enquanto isso, a concorrente Samsung aproveitou o cenário para divulgar uma campanha publicitária promovendo seus modelos mais leves e finos, declarando estar “anos à frente no segmento de dobráveis”.
Análise técnica e demandas
Um ex-engenheiro de telas da Apple, com experiência nos procedimentos de fabricação e design da companhia, avaliou que a explicação mais plausível é a ocorrência de defeitos restritos a um grupo muito reduzido, difíceis de identificar nos testes de fábrica devido à raridade da falha.
“Mesmo que você teste mil unidades de cada vez, precisa que pelo menos uma apresente uma falha para poder começar a investigar o problema”, afirmou. Ele acrescentou que o contratempo também pode derivar de um lote específico de peças defeituosas entregues por um fornecedor.
Antes mesmo do “Crackgate”, os primeiros clientes do Duo já haviam lidado com atrasos logísticos. A empresa justificou a extensão das entregas para o próximo ano com base em uma demanda sem precedentes.
Os percalços com o Duo ocorrem logo após outra falha recente na linha de celulares deste ano. Clientes da operadora AT&T que adquiriram o iPhone 18 Pro Max sofreram interrupções definitivas no sinal de rede móvel, forçando a Apple a liberar uma atualização de software corretiva para blindar outros dispositivos contra o erro.
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