Freezers de supermercados são atacados na Suécia e Bélgica e superaquecem a mais de 50°C

Ataques cibernéticos superaquecem freezers de supermercados na Europa

Mercados

Uma onda de invasões cibernéticas atingiu dezenas de supermercados na Suécia e na Bélgica na última segunda-feira (2), elevando repentinamente a temperatura de freezers e geladeiras para mais de 50°C e estragando estoques avaliados em milhões de euros, semanas após incidentes semelhantes na França.

O impacto na Suécia e na Bélgica

Na Suécia, estabelecimentos das redes Ica e Coop sofreram alterações forçadas em seus sistemas de refrigeração. A Coop relatou que hackers não identificados adulteraram as configurações de geladeiras e freezers em sete de suas cerca de 800 lojas. Pelo menos quatro unidades da Ica também foram atingidas.

Camilla Nilsson, gerente da loja Ica St Olof, em Österlen, na Suécia, afirmou que hackers “conseguiram invadir nossos sistemas de gerenciamento de refrigeração e alterar as configurações”.

Na Bélgica, supermercados pertencentes à Ahold Delhaize e ao Carrefour sentiram os impactos do ataque. Cerca de 40 lojas da Delhaize e cinco unidades da Spar foram afetadas, segundo a imprensa local. O Carrefour informou que 15 de seus estabelecimentos na Flandres e na Valônia foram atingidos, mas conseguiram permanecer abertos.

Especialistas alertam repetidamente sobre os riscos que falhas de segurança de TI e softwares desatualizados representam para infraestruturas críticas, indo de usinas de energia até o comércio de alimentos.

“Não conseguimos ajustar as temperaturas, não conseguimos alterá-las. Ar quente está sendo soprado para dentro dos freezers. Tudo está perdido”, lamentou Rickard Nilsson, responsável por uma loja da Ica em Sjöbo, no sul da Suécia, ao jornal Aftonbladet. O gestor acrescentou que temperaturas superiores a 50°C destruíram alimentos avaliados em centenas de milhares de coroas suecas.

Investigação e contexto tecnológico

Esses episódios acontecem logo após centenas de supermercados franceses sofrerem ações parecidas, onde a temperatura de uma geladeira chegou a atingir 80°C. O caso da França segue sob investigação da unidade de crimes cibernéticos do Ministério Público de Paris e da Anssi, a agência de segurança cibernética do governo francês.

Boa parte dos equipamentos afetados utilizava softwares da Danfoss, grupo industrial dinamarquês. Em agosto, pesquisadores da Claroty publicaram um relatório apontando “múltiplas vulnerabilidades” nos sistemas da marca, que foram corrigidas posteriormente. Segundo a Danfoss, os ataques miraram sistemas de refrigeração sem atualizações de segurança e operando com firmware obsoleto, embora tenha ressaltado que nenhuma ligação foi estabelecida entre os ataques de segunda-feira e seus produtos.

Mich Vergauwen, porta-voz do Carrefour na Bélgica, destacou que a nova investida foi parecida com a registrada na França, mas que apenas poucas lojas sofreram danos devido a barreiras extras, como atualizações e conexões seguras implementadas após os episódios franceses.

Ataques voltados a equipamentos industriais — a chamada tecnologia operacional, ou OT — tradicionalmente demandam conhecimento especializado profundo e alta complexidade para execução em massa. Contudo, Robert Lee, CEO da empresa de segurança cibernética Dragos, avalia que grandes modelos de linguagem reduziram essa barreira, permitindo que criminosos alcancem múltiplos locais e dispositivos simultaneamente.

Para ilustrar essa mudança, Lee recorda que no início do ano hackers supostamente ligados ao Irã bloquearam o acesso de administradores a dezenas de empresas de abastecimento de água nos Estados Unidos, forçando paralisações.

“O alcance e a escala desses ataques são algo novo”, pontuou o especialista, ressaltando que invasões a OT costumavam se limitar a ocorrências isoladas. “Nunca tivemos mais de cem empresas de abastecimento de água [afetadas] ao mesmo tempo. Nunca tivemos centenas de supermercados ao mesmo tempo.”

Por fim, a Ahold confirmou estar ciente de “um incidente de TI que afetou os sistemas de refrigeração de várias lojas da Delhaize” e declarou estar trabalhando para mensurar os danos.

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