Januária guarda cavernas monumentais no coração do sertão mineiro

Januária guarda cavernas monumentais no sertão mineiro

Turismo

Do portal de entrada, os olhos não alcançam o que existe lá embaixo. Descemos por uma trilha bem marcada entre pedras de todos os tamanhos, e só no pórtico da gruta a escala se revela. Dentro da caverna, a paisagem contraria a própria ideia de subterrâneo: um jardim se ergue em direção às aberturas do teto, com árvores de até 40 metros emolduradas por paredões e salões que chegam aos 180 metros de altura. Foram as águas do rio Peruaçu que, há milênios, esculpiram esses caminhos.

Ao longo de seus 4.700 metros de extensão, a luz não para quieta. O sol atravessa uma claraboia em formato de coração, talhada na pedra pelo tempo. A vegetação, a rocha e a trilha ora assumem tons prateados, ora esverdeados. Ao fim da tarde, ganham matizes dourados. Um bocadinho adiante, porém, o brilho desaparece abruptamente em trechos dominados pela escuridão total.

Foi nesse cenário que a gruta do Janelão ajudou a moldar o imaginário da ficção brasileira e a própria ideia de sertão. O lugar serviu de refúgio e passagem para Riobaldo e Diadorim em “Grande Sertão: Veredas”, a obra-prima em que João Guimarães Rosa imortalizou aquele pedaço do Brasil.

Estamos na mais volumosa caverna do país, uma das mais de 200 já catalogadas no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. E o levantamento está longe do fim: pesquisadores estimam que a unidade de conservação possa abrigar outras 1.400 cavidades ainda não registradas.

Gigantes de calcário e patrimônio mundial

Em pleno Janelão, a mesma engenharia do tempo produziu uma estrutura de dimensões raras: a maior estalactite suspensa do mundo. Apelidada de Perna da Bailarina por suas curvas, a formação de calcário tem 28 metros. Para efeito de comparação, equivale a um prédio de nove andares e quase a altura da estátua do Cristo Redentor. Gota a gota, a água filtrada pelas fendas do teto depositou minúsculas partículas minerais até esculpir a forma que hoje se projeta sobre a caverna.

Reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial Natural, a reserva se estende por 56 mil hectares, área equivalente a cerca de 350 parques Ibirapuera. Criada em 1999, a unidade abraça três municípios próximos da divisa com a Bahia: Itacarambi, Januária e São João das Missões. O parque reúne áreas de caatinga, cerrado e mata atlântica, além de cerca de 80 sítios arqueológicos com pinturas rupestres datadas de 500 a 11 mil anos atrás.

O título da Organização das Nações Unidas não ficou no papel. De acordo com a gestora do parque, Dayanne Ferreira dos Santos Sirqueira, 2025 foi o ano de maior visitação da história da unidade: 23.082 pessoas, alta de 58% sobre os 14.600 registros do ano anterior. Para este ano, a expectativa é superar a marca de 30 mil visitantes. O movimento é sazonal: vai de cerca de 1.000 turistas nos meses de baixa, como março e abril, a quase 3.000 nas férias de julho, pico da temporada. São viajantes que chegam, pernoitam, passeiam e consomem. É nesse ponto que a natureza se encontra com a atividade comercial.

“Ter um parque assim praticamente no quintal de casa é um privilégio total”, conta Anthony César Alves Barbosa, 21, integrante da brigada de incêndio do Peruaçu. “Estamos numa área com forte presença da natureza, mas onde não faltam produtos, a oferta é diversificada. Com o reconhecimento internacional, a tendência é recebermos ainda mais gente, o que já vem acontecendo. E onde há público, as grandes marcas também precisam se fazer presentes.”

O perfil socioeconômico de Januária

É essa engrenagem que conduz o Datafolha a um município distante ao menos 600 quilômetros de Belo Horizonte. Januária tem população estimada em 67.123 habitantes e PIB per capita de R$ 15.970,66 em um território de 6.661 km², mais de quatro vezes a área da capital paulista, com densidade próxima de 10 habitantes por quilômetro quadrado. Trata-se de uma cidade que consome, escolhe marcas e influencia percepções. Por essa razão, o município mineiro entrou na rota desta edição especial da Folha Top of Mind.

A iniciativa do instituto busca capturar as nuances de localidades fora do radar dos grandes eixos urbanos, mas que concentram uma diversidade socioeconômica e cultural essencial para compreender a lembrança de marca e o comportamento de consumo em um país de dimensões continentais, explica a diretora do Datafolha, Luciana Chong. Ouvir a cidade é garantir que a voz de um Brasil múltiplo e interiorano também esteja, de fato, representada na pesquisa.

A cerca de 30 minutos de carro do parque, Januária detém o título de capital da cachaça artesanal do norte de Minas. Fica em uma zona de transição onde o Sudeste se conecta ao Nordeste e ao Centro-Oeste, cravada na bacia do Médio São Francisco. Não é raro avistar mandacarus, ícones do sertão, adornando jardins e varandas de casarões históricos.

As margens do Velho Chico e o distrito de Brejo do Amparo

Entre julho e outubro, quando o Velho Chico baixa de nível e recua, o sertão revela sua praia. O leito que estava submerso dá lugar a bancos de areia fina, onde se monta a estrutura de veraneio. Banhar-se nesse trecho do São Francisco é testemunhar o crepúsculo tingir de dourado as águas. Nas chuvas de fim de ano, contudo, o rio ganha volume e a faixa de areia volta a desaparecer.

O rio São Francisco corta a cidade, e parte de sua margem é ocupada pelo Cais de Januária, tombado como Patrimônio Cultural de Minas Gerais. Construído originalmente para proteger o município das cheias, o espaço hoje reúne comércio, convivência e lazer, além de ser palco de eventos públicos e uma janela para a paisagem do histórico rio São Francisco, que corta Minas Gerais e segue pelo Nordeste.

Ao fim da tarde, quando o sol baixa sobre as águas, essa relação entre passado e presente se revela com mais força na avenida beira-rio. Casarões da era da navegação a vapor ainda resistem ao tempo, embora muitos estejam abandonados, ao lado de hotéis, restaurantes, o comércio de peixes nativos e a legítima cachaça local.

Um pouquinho mais de 6 km separam o centro de Januária do distrito de Brejo do Amparo, onde o tempo segue a cadência das conversas na praça, das brincadeiras de rua e do voo do sofrê. De plumagem alaranjada e negra e canto marcante, a ave, também conhecida como corrupião, é encontrada nas paisagens secas do sertão mineiro. O Brejo guarda memórias dos bandeirantes de meados do século 18 e é um daqueles vilarejos onde se estaciona o carro para caminhar a pé, em busca de simplicidade. Seus moradores são hospitaleiros, sempre dispostos a um dedinho de prosa com forasteiros. Atrás do povoado, um morro terracota, coberto por vegetação rasteira que ganha volume à medida que sobe, serve de mirante para o espetáculo multicolorido do entardecer.

Desafios e contrastes locais

Entretanto, o sertão que fascina o visitante impõe desafios a quem ali finca raízes. Vizinha à reserva, Rosana Pereira Souza dos Santos, 26, encontrou nas pousadas do entorno do parque nacional o seu sustento, mas esbarra diariamente nas dificuldades do isolamento geográfico.

Alguns serviços básicos são escassos, sobretudo nos bairros e distritos afastados do centro urbano. “Creches, por exemplo, a gente não encontra com facilidade. Para quem has filho e precisa trabalhar, a situação é complicada”, ela desabafa.

O turismo chegou antes da infraestrutura. Foi essa natureza que revelou ao Brasil urbano as profundezas de um território que Guimarães Rosa imortalizou para além da geografia. Hoje, as cavernas do Peruaçu voltam a revelar o sertão de Januária.

Monumental para quem chega. Ainda por fazer para quem fica.

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