Existe uma regra de ouro no jornalismo que é ouvir o outro lado. Trata-se de algo que ultrapassa uma simples exigência procedimental, envolvendo questões éticas, pluralismo, contraditório e compromisso com a verdade. No entanto, a prática profissional exige ir muito além desse preceito básico, incorporando premissas fundamentais como investigar perspectivas complementares e desconfiar de cortinas de fumaça.
Existem outras duas máximas para essa atividade, que são olhar o outro lado e olhar para o outro lado. Olhar o outro lado significa investigar perspectivas, fatos e circunstâncias que não estão contemplados na narrativa inicial, ampliando o campo de observação e permitindo uma compreensão mais abrangente dos acontecimentos.
Significado distinto possui a expressão olhar para o outro lado. Trata-se de perceber que, por trás dos fatos apresentados em primeiro plano, podem existir outros, igualmente ou até mais relevantes, que a narrativa predominante procura esconder sob uma cortina de fumaça. É investigar não apenas aquilo que se mostra, mas também aquilo que se pretende ocultar.
O papel fundamental de Márcio Chaer
Márcio Chaer, assim como a orientação editorial que imprimiu à revista que fundou, a Consultor Jurídico, sempre observou essas três máximas. A meu ver, destacava-se especialmente por olhar para o outro lado. Chaer tinha a capacidade de desconfiar do destaque excessivo conferido a determinados acontecimentos e de investigar se essa ênfase não teria justamente a finalidade de desviar a atenção do público de outros fatos, menos visíveis e talvez mais importantes.
É algo semelhante à conhecida estratégia de lançar uma pedra em determinada direção para produzir barulho e atrair os olhares, enquanto se escapa pelo lado oposto. Chaer não se contentava em observar o local onde a pedra havia caído; procurava descobrir quem a havia lançado, por que e o que acontecia na direção contrária. Essa capacidade investigativa não é usual.
Além de consolidar essa visão crítica, Chaer criou a Consultor Jurídico e a manteve como um espaço aberto e plural de informação e debate. Mais do que isso, assegurou sua gratuidade, permitindo acesso irrestrito a um vasto acervo de artigos jurídicos, análises e notícias que fazem da publicação uma referência para todos os interessados nas questões jurídicas nacionais.
Despedida e legado
Aguerrido, combativo e leal aos amigos, Chaer faleceu há cerca de 30 dias, em 3 de outubro de 2026, aos 71 anos, de forma súbita e trágica, surpreendendo a todos. Segundo relato divulgado pela imprensa, estava em um automóvel, em São Paulo, quando teve seu celular subtraído por um ladrão. Em vez de se conformar com o ocorrido, reagiu como tantas vezes fizera na vida e no jornalismo, saindo em perseguição ao responsável, quando sofreu um mal súbito e faleceu.
Vê-se que, até na hora da morte, o Direito esteve presente na vida de Chaer. Com a devida licença aos penalistas e liberdade de linguagem técnica, é possível dizer que foi vítima de um latrocínio, não pela configuração jurídica do crime, mas pela trágica sucessão dos acontecimentos.
A notícia espalhou tristeza pelo mundo jurídico e pela imprensa. Uma lástima.
A perda é irreparável, mas a ConJur deve seguir honrando o espírito de seu fundador e preservando as diretrizes que marcaram sua trajetória. Isso significa não apenas ouvir o outro lado, como uma exigência burocrática, nem somente olhar o outro lado, ampliando as perspectivas de investigação. Significa, sobretudo, olhar para o outro lado, procurando identificar aquilo que não está sendo mostrado e compreender por que determinados fatos recebem tanta atenção, enquanto outros permanecem na sombra.
Em tempos difíceis, nos quais um espesso nevoeiro parece obscurecer nossa visão, precisamos de um jornalismo capaz de enxergar além do que se apresenta à primeira vista. Foi essa uma das grandes contribuições de Márcio Chaer. Mesmo com a perda de seu fundador, desejo vida longa à ConJur.
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