Café do Alto Noroeste fluminense ganha força com foco em grão especial

Café do Alto Noroeste fluminense aposta em grãos especiais

Gastronomia

Produtores de café do Alto Noroeste fluminense estão investindo em qualidade a fim de resgatar a imagem dos cafés do estado.

O Rio de Janeiro foi o berço da expansão cafeeira do Brasil no século 19. O porto carioca centralizou os embarques da produção brasileira, que então era concentrada na própria cidade do Rio, na Baixada Fluminense, no Vale do Paraíba e na Zona da Mata Mineira.

Após a decadência dos cafezais pioneiros, a cafeicultura migrou para São Paulo e Minas Gerais. Nessa época, teve início um processo de modernização das fazendas, com a adoção de manejos mais adequados. Assim, começaram a produzir cafés de maior qualidade.

Foi quando surgiu o porto de Santos, que passou a escoar essa produção. Nessa época, era comum usar o nome do porto para indicar o tipo de café dele exportado. Portanto, o “café Santos” ficou conhecido como um café superior, enquanto o “café Rio” se referia a um produto de baixa qualidade.

De “café Rio” derivou o adjetivo “riado”, usado para se referir aos grãos que tiveram uma fermentação indesejada e, por isso, produziam uma bebida com sabor fenólico –o popular “gosto de remédio”.

Mas a associação do Rio a um café de baixa qualidade é equivocada, segundo Cristiana Beltrão, idealizadora do Instituto Bazzar –organização que tem pesquisado sobre o assunto e apoiado cafeicultores do estado.

“Nossa umidade, antes das técnicas atuais, levava a mofo e outras características avaliadas como ‘defeitos do porto do Rio’, mas num momento em que aquele porto escoava todos os cafés, também de Minas ou São Paulo, então o defeito poderia ser de qualquer lugar. Alguns produtores de estados vizinhos se apropriaram dessa narrativa historicamente equivocada para associar o café do Rio a um produto menor, o que nunca foi verdade. Mas isso afetou preços e a marca regional”, diz Beltrão.

Retomada e cultivo especial

A tentativa de reverter essa imagem começou apenas em 2014, quando entidades como a Embrapa e a Emater passaram a investir na formação dos produtores do Alto Noroeste fluminense, especialmente em técnicas de pós-colheita.

Com isso, muitos cafeicultores da região começaram a cultivar café especial, que requer uma colheita mais trabalhosa, mas com maior valor agregado.

“A região é tão acidentada que a mecanização é quase impossível. A colheita manual, que era ‘um estorvo’ para o produtor, passou a ser tratada como uma estratégia de posicionamento. O café especial passou a ser uma solução, e não um capricho de quem quer cobrar mais”, explica Beltrão.

O Alto Noroeste é uma região que fica próxima da divisa com o Espírito Santo e Minas Gerais. Abrange municípios como Varre-Sai e Porciúncula e responde por 80% do café cultivado no Rio de Janeiro. O estado produz anualmente cerca de 350 mil sacas de 60 kg, o equivalente a 0,5% da produção nacional.

Como o volume é pequeno, não é comum encontrar grãos fluminenses mesmo em cafeterias com ampla diversidade de grãos. Alguns produtores locais, no entanto, vendem diretamente para o consumidor final. É o caso do Café Pelegrini e do Café Manduca.

Em geral, os cafés especiais da região são doces e não têm acidez elevada nem perfil sensorial exótico –predominam notas que remetem a nozes e caramelo.

Enquanto isso, em São Paulo, a barista Gi Coutinho e a mestre de torras Cássia Novaes farão um curso no J. Café, na Vila Leopoldina, região oeste de São Paulo, no dia 6.dez, das 10h às 13h. Elas guiarão o consumidor por cafés de diferentes origens –tanto no coado quanto no espresso. A experiência será harmonizada com queijos e chocolates. Custa R$ 324 por pessoa e a inscrição pode ser feita por meio do Instagram @puracaffeina.

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