Porsche não arriscou no design do Mission S. Perguntámos porquê

Por que a Porsche evitou ousadias radicais no design do novo Mission S

Automóveis

No último andar do Wythe Hotel, em Brooklyn, com vista para Manhattan, Nova Iorque, estivemos à conversa com Tobias Sühlmann, no dia seguinte à revelação do Mission S. Depois da apresentação mundial e sucessivas entrevistas, já se notava algum cansaço no novo diretor de design da Porsche, mas a boa disposição esteve sempre presente.

Afinal, razões para sorrir não faltam. Chegou à Porsche em fevereiro para substituir Michael Mauer, que durante mais de 20 anos definiu o design da marca e estreou-se com uma missão invulgar: desenhar um superdesportivo de motor central traseiro, acima do 911. Tobias Sühlmann é apenas o quinto diretor de design em toda a história da Porsche.

Nada de edições limitadas como o Carrera GT ou o 918 Spyder, mas um superdesportivo que vai fazer parte permanente da gama. Um projeto que também servirá para mostrar a direção do design da Porsche nos próximos anos. Foi Michael Leiters, o novo diretor-executivo, quem lançou o desafio: “Ligou-me há cerca de oito meses, à noite, e disse-me: vamos fazer um carro acima do 911. E comecei a trabalhar com uma equipa. Foi assim”.

O resultado está à vista nas imagens. O Mission S é inconfundivelmente um Porsche. Mas porque escolheu Sühlmann um desenho que aposta na evolução, fiel à herança da marca, em vez de uma abordagem mais ousada? Foi o que procurámos saber nesta mesa-redonda.

Não é preciso ser diferente a qualquer custo

O contraste com outras estreias de 2026 é evidente. O Ferrari Luce, o Jaguar Type 01 e o Audi Nuvolari (também do Grupo Volkswagen) chocaram e dividiram opiniões com propostas muito mais ousadas. A resposta de Sühlmann não se fez esperar.

“Acho que é exatamente isto que as pessoas querem agora. Basta olhar para a Internet, que está a explodir neste momento”, começou por dizer, referindo-se à receção ao Mission S. “Quando ouvimos as pessoas e temos a nossa própria perceção do que é necessário, numa época em que tudo são guerras e crises, a Porsche é algo em que podemos confiar. É uma espécie de alimento para a alma”.

Para Sühlmann, esta confiança também se constrói através de um desenho que não precisa de procurar incessantemente a novidade.

“Basta concentrarmo-nos em formas bonitas e desenhar um carro bonito. Não precisamos de tentar ser diferentes ou negar o nosso passado. Podemos simplesmente ser aquilo que somos. E nós somos a Porsche”.

E porque não evoluir o Mission X?

Antes do Mission S houve o Mission X, revelado em 2023, que antecipava um hipercarro elétrico com uma linguagem visual mais progressiva, menos presa ao passado. Porque não seguir esse caminho?

“Começámos de novo. Olhei para a história da marca. Estudei verdadeiramente a Porsche”, respondeu Sühlmann. “Fui aos arquivos, visitei o museu, tenho uma pilha de livros. Conduzi muitos carros diferentes”, acrescentou. Entre as experiências, destacou a oportunidade de percorrer antigas estradas do Rali de Monte Carlo com Walter Röhrl.

Sühlmann quer combiná-las num conjunto sem uma época definida: “Para mim, havia três palavras fundamentais: autêntico, coerente e intemporal. Criar algo que dure. Algo que não esteja na moda, mas que seja moderno”. “Quero criar algo que possamos olhar daqui a 10 ou 15 anos e continuar a pensar: que carro tão bonito. É esse o objetivo. É assim que desenho”, acrescentou.

A forma e a função têm de andar juntas

A herança Porsche não se resume às proporções ou elementos gráficos. Há outro princípio fundamental para Sühlmann: a honestidade do desenho.

“Aquilo de que não gosto são coisas falsas. Gosto de coisas verdadeiras. Para mim, a forma e a função andam juntas”.

“Eliminaria todos os escapes falsos ou as falsas entradas de ar. Não gosto disso. Quero sempre concentrar-me num design com um propósito, tanto no exterior como no interior”. Desde os primeiros esboços, Sühlmann envolve os engenheiros para discutir o posicionamento dos radiadores, entradas de ar e aerodinâmica: “A forma não segue simplesmente a função. A forma e a função formam uma unidade”.

Com motor central traseiro, o Mission S apresenta um habitáculo mais avançado e «encaixado» na carroçaria, com a linha do tejadilho a prolongar-se até à traseira. Aproxima-se do 911 na linguagem visual, mas com proporções distintas, que refletem o posicionamento do motor.

Mais relógio suíço, menos Apple Watch

A mesma filosofia estende-se ao interior, que contraria a tendência da multiplicação de ecrãs, uma tendência que a Porsche bem conhece. Repare-se, por exemplo, no Cayenne Electric. O Mission S recupera cinco instrumentos circulares, comandos físicos e dispensa um ecrã central. Em alternativa, tem um suporte magnético retrátil para integrar um smartphone.

Sühlmann justificou a decisão com uma comparação: “é como um relógio suíço comparado com um Apple Watch. Este último tem excelentes funcionalidades e permite fazer muitas coisas. Mas também é fantástico ter um relógio suíço, onde podemos apreciar todos os detalhes”. “Num carro como este podemos ser mais analógicos. É um automóvel mais centrado na condução. Num Cayenne, onde transportamos a família, podemos ter os ecrãs de que precisamos”. Ele não rejeita a digitalização, mas defende a ideia de que diferentes automóveis pedem experiências distintas. No Mission S, a tecnologia deve servir o condutor, não disputar a sua atenção.

Evoluir sem perder a identidade

Sühlmann não parece preocupado em provar que consegue reinventar a Porsche. O seu currículo inclui passagens pela Bugatti, Aston Martin, Bentley e McLaren, marcas com identidades distintas. Mas insiste na importância de compreender cada marca antes de desenhar os seus automóveis.

“A Bentley é a Bentley. A Aston Martin é a Aston Martin. A Porsche é a Porsche. Temos de nos concentrar na Porsche e perceber como podemos levá-la para o futuro”.

O Mission S é o primeiro exemplo dessa orientação: recuperar referências históricas sem abdicar de uma interpretação contemporânea. Nas palavras de Sühlmann, a continuidade não surge como obstáculo à criatividade, mas como um princípio que a orienta. O desafio não é apenas desenhar os próximos automóveis da Porsche. É garantir que, daqui a 20 anos, continuarão a ser reconhecidos como Porsche. E, para Sühlmann, isso começa por perceber o que vale a pena preservar.

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