Meta veiculou no Brasil anúncios políticos ilegais pagos no exterior, diz pesquisa

Meta veiculou 1.600 anúncios políticos ilegais pagos no exterior

Política

Entre os meses de julho e setembro de 2026, a Meta — controladora do WhatsApp, Facebook e Instagram — manteve em circulação ao menos 1.613 anúncios políticos irregulares direcionados ao público brasileiro. A constatação faz parte de um relatório elaborado pelo NetLab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O montante investido nas publicidades chegou à marca de R$ 2 milhões, cifra comparável aos orçamentos de grandes campanhas oficiais. Para efeito de comparação, a candidatura de Fernando Haddad (PT) ao Governo de São Paulo destinou R$ 2,4 milhões à veiculação de propaganda na plataforma entre 5 de julho e 3 de outubro.

Violações à legislação e origem dos recursos

Os dados mostram que os conteúdos foram bancados predominantemente em moeda estrangeira por páginas apócrifas. Dos 1.076 anúncios que detalhavam a localização da fonte pagadora, 98,1% tinham origem registrada nos Estados Unidos. Ao todo, 99,5% do valor total foi desembolsado em dólar americano, computado com base na cotação cambial de 1º de outubro de 2026.

As publicações desrespeitaram diversos pontos da legislação eleitoral do Brasil, que veta expressamente aportes financeiros de origem estrangeira e restringe o impulsionamento digital a candidatos, coligações, federações e partidos. Além disso, foram detectados anúncios com ataques e propaganda negativa contra adversários — prática proibida por lei —, além de materiais sem a identificação do contratante e desprovidos da etiqueta obrigatória de “propaganda eleitoral”.

No total, as 1.613 inserções foram promovidas por 187 anunciantes distintos, alcançando 171,1 milhões de visualizações e citando nominalmente 70 concorrentes ao pleito.

“É escandaloso que a Meta tenha ganhado R$ 2 milhões veiculando anúncio absolutamente ilegal durante as eleições brasileiras. Isso aponta falhas sistêmicas que são problemáticas e podem afetar as eleições”, afirma Marie Santini, diretora do Netlab UFRJ.

Principal pagador e contradições nas mensagens

A pesquisa identificou a Corporativo Lam, LLC como o maior emissor financeiro individual, respondendo por 97,3% dos anúncios que continham identificação de pagador. A firma norte-americana pode ter aplicado até R$ 1,6 milhão em publicidades eleitorais nas ferramentas da big tech.

Apesar de a investigação acadêmica não ter localizado os beneficiários finais por trás da empresa, foi identificado que a conta promoveu e atacou candidaturas variadas simultaneamente, apresentando discursos contraditórios e obscurecendo os reais interesses políticos por trás da movimentação.

Caso fosse enquadrada como um competidor formal, essa categoria de impulsionamento vinda de fora do país ocuparia a 11ª posição entre os maiores anunciantes da Meta no período. A lista geral é liderada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com R$ 9,4 milhões, seguido por Flávio Bolsonaro (PL), com R$ 6,8 milhões, Tarcísio de Freitas, com R$ 3 milhões, e Haddad, na sexta posição, com R$ 2,4 milhões.

Resposta da plataforma e críticas dos pesquisadores

Inicialmente, os materiais circularam livres do selo de conteúdo eleitoral e só foram retirados ou reclassificados após gerarem engajamento massivo. Para os pesquisadores da UFRJ, a conduta revela uma fiscalização meramente reativa, que só intervém depois da monetização do tráfego.

Em posicionamento oficial, a Meta declarou que “como o próprio estudo reconhece, os anúncios analisados foram identificados e posteriormente recategorizados ou, quando aplicável, retirados de circulação por violarem nossas políticas”. A empresa completou pontuando que “além disso, o estudo engloba anúncios veiculados a partir de julho, antes do período oficial de campanha. Nosso processo de análise possui diversas camadas de revisão e detecção, antes e durante a veiculação.”

O NetLab ressalva que o faturamento da plataforma com essas irregularidades pode ser ainda mais expressivo, já que a análise ficou restrita às peças que a própria rede reconheceu e reclassificou posteriormente.

“Para ter noção do nível do problema, teria que haver transparência da totalidade de publicidade de anúncio que acontece na Meta, seja marcado como político ou não. Porque eu só consigo ver o que a plataforma diz que é político”, explica Marie Santini. “A gente só vai ter condições de entender o tamanho desse problema se houver transparência total da publicidade que circula na Meta.”

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